“Não se trata de não desfrutar, nem de desfrutar o menos possível. Isso não seria virtude mas tristeza, não temperança mas ascetismo, não moderação mas impotência. Portanto, é próprio de um homem sábio usar as coisas e ter nisso o maior prazer possível (sem chegar ao fastio, o que não é mais ter prazer). A temperança é o contrário do fastio, ou o que leva a ele; não se trata de desfrutar menos, mas de desfrutar melhor. A temperança, que é a moderação nos desejos sensuais, é também a garantia de um desfrutar mais puro ou mais pleno. É um gosto esclarecido, dominado, cultivado. A temperança é essa moderação pela qual permanecemos senhores de nossos prazeres, em vez de seus escravos. É o desfrutar livre, e que, por isso, desfruta melhor ainda, pois desfruta também sua própria liberdade.”
André Comte-Sponville – Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
As sábias palavras de Sponville faz pensar que estamos num mundo de cabeça pra baixo, que inverte os valores e considera mais desafortunados aqueles que não buscam os prazeres mais extremos e se rendem aos desejos incontrolados do corpo, já que não conseguem preencher a alma. Escravos.
O que deveria ser uma prática saudável vai se tornando incontrolável, viciante. A internet deveria ser um excelente instrumento de conhecimento e informação, mas se tornou arma de autodestruição e alienação. A bebida que deveria proporcionar um paladar prazeroso se tornou um veneno, que mata silenciosamente o suicida descontrolado. O sexo que deveria ser puro se desumanizou, se tornou sem reservas num excesso que expõe a intimidade. O amor próprio é confundido com vaidade doentia, onde a aparência vale mais do que a essência. Usar uma roupa repetida incomoda mais a consciência do que perceber a própria atitude egoísta.
Moderação parece ser uma palavra inexistente. Contentar-se com pouco, tornar-se satisfeito tendo desfrutado o suficiente parece não ser possível. Queremos mais, queremos muito porque parece ser assim que realmente vale a pena. Porém, vazio.
“E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espirito Santo…” Ef 4.18.
Um Espírito que enche a alma e traz alegria, que nos leva da insatisfação ao contentamento. Não ao prazer de um momento enquanto aguça o paladar, mas o prazer de uma vida que desfruta a liberdade de dizer não.
Juliano Fabricio em outras fronteiras



