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"Quando olho para o Jesus lá em cima [no alto do Corcovado, no Rio de Janeiro], fico imaginando o que ele está pensando", medita Margarida, de sua casa na favela. Sua mãe, doente, com tosse e sangramentos, trabalha num hotel em Copacabana, onde os ricos se divertem. Do alto daquela montanha, flutuando acima da neblina, Jesus deve ver tanto a favela quanto os hotéis de luxo, bem como o sacerdote que dirige um carro de luxo e mora numa casa bem grande.Por que ele se mantém calado?

Enquanto isso, 

...os cristãos estão muito ocupados, construindo uma contra sociedade - completa, com escolas, livrarias, música, moda, estações de televisão e rádio, até mesmo anúncios de negócios, numa espécie de Páginas Amarelas cristã - e visando, com isto, se proteger dos ataques do mundo secular, cujo objetivo era sua destruição. Triste...triste...triste.

Em um tempo em que as questões sociais e a fé se afastam, poderíamos usar um pouco mais de brilho, alegria e, acima de tudo, um espírito generoso. 

Quando a sociedade fica polarizada, como está a nossa, é como se os dois lados se colocassem a distância e gritassem um para o outro. Triste realidade.

Dica: Devemos nos levantar com tolerância, engajamento, amor e eloquência suficientes para falar aos dois lados ao mesmo tempo. 

...e fica aqui nossas profundas desculpas menina Margarida

Juliano Fabricio
um culpado confesso


Olhando para a história, tropeçamos em uma profunda verdade: a igreja estava destinada a ser, em primeiro lugar, uma organização de voluntários. O poder da igreja verdadeiramente é o poder de todos, como homens e mulheres, jovens e velhos, oferecerem seus dons para o cumprimento do plano redentor de Deus. 

Jesus propositalmente tomou uma decisão estratégica ao convidar Pedro, Tiago, João e outros discípulos para que o ajudassem a propagar as novas do Reino. Ele poderia ter construído seu ministério de outras formas. Poderia ter continuado a agir sozinho. 

Poderia ter insistido para que todos os seus seguidores fizessem um estágio em missões de tempo integral de dois ou três anos durante sua primeira década de discipulado. 

Entretanto, Jesus preferiu promover sua obra contando, primeiramente, com pessoas comuns que vivem no mundo real da família, dos negócios e da comunidade. Ele acreditava que as mesmas habilidades usadas para fazer vasos de barro, arrebanhar animais e assar pão poderiam promover o Reino de Deus. 

O apóstolo Paulo sentiu tão fortemente o chamado para ser um voluntário que, em I Coríntios 9, fez as pessoas se lembrarem de que ele mesmo era um voluntário. Ele se sustentava fazendo tendas para que pudesse servir como pastor e líder sem se tornar um dreno financeiro para a igreja. 

O Reino de Deus não pode avançar só por meio dos esforços das estruturas engessadas. Creio que a Igreja é a esperança do mundo. Mas essa esperança está na disposição de voluntários de todos os estilos de vida — médicos, professores, mães que ficam em casa, executivos, universitários, enfermeiros, avós, engenheiros aposentados, carpinteiros, dentistas, cabeleireiros, colegiais, balconistas de mercearias — de serem mobilizados, capacitados e usados por Deus. 

Juliano Fabricio


O Bicho 


Vi ontem um bicho 

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

(Manuel Bandeira)

Ver minha cidade na perspectiva dos viadutos, casarões, esculturas, praças, prédios é lindos cenários, é de encantar qualquer pessoa.

Mas fui mais fundo, profundo, vi pessoas.

Vi – prostitutas, mendigos, velhos, vejo a cidade que tem um enorme contigente de pessoas morando nas ruas.

Não vi – Igrejas trabalhando efetivamente por essas pessoas.

Como cristão cresci, fui criado, aprendi meus preceitos, li meu livro predileto (a Bíblia).

Com esses preceitos cri que a vida poderia ser diferente, mais amena, menos sombria.

Sei que se as igrejas unissem forças, elas poderiam vencer a escuridão, ser amparo, refúgio, ser impulso! E olha que hoje dinheiro e gente não falta.

Creio ainda assim, minha esperança ainda não morreu.. mas não creio mais na união de forças da igreja, creio sim na união de um povo escolhido por Deus, cristãos que seguem preceitos, sabem que a vontade de seu Criador é a unidade independente de rótulos, mesmo que a sociedade os chamem de loucos.

Acreditar que podemos ser igreja de verdade, ser povo, junto, escolhido para ajudar uma geração que está padecendo de amor, paz, amparo e vida!

Vida que é mostrada pelo amor do Cristo através da nossa vida!

LUTEMOS JUNTOS!

É sempre possível!

Que se ajuntem a nós todos aqueles que precisam.

“Davi retirou-se dali e se refugiou na caverna de Adulão; quando ouviram isso seus irmãos e toda a casa de seu pai, desceram ali para Ter com ele. Ajuntaram-se a ele todos os homens que se achavam em aperto, e todo homem endividado, e todos os amargurados de espírito, e ele se fez chefe deles; e eram com ele uns quatrocentos homens.” I Samuel 22:1,2.

Ps: Esse post foi uma maneira de desabafar, pois dia desses conduzi uma força tarefa na minha empresa para ajudar de alguma forma uma mãe que foi surpreendida a 10 meses com a chegada de trigêmeos e também com o terrível diagnostico de um câncer. Foi conseguido uma creche para os filhos para que ela tivesse tempo para fazer a quimioterapia, porem como as crianças estão gripadas a creche preferiu não recebê-las. O que mais me choca é o fato de que nenhuma igreja se sensibilizou com a história dessa família. E olha que no bairro precário que essa mulher mora, só em uma rua, tem várias “igrejas”. 

Por isso insisto na minha tese: "toda igreja deveria ser um centro comunitário".

Juliano Fabricio - ainda  crendo
 mas de forma altamente subversiva.


Todas as estruturas da igreja devem revelar a marca do amor de Cristo dedicado aos pobres. Ao ignorar essa árdua sentença, a própria igreja se torna empobrecida, assim como bem pouco confiável e bem pouco convincente para pregar o evangelho com clareza e visão, e também infantilmente presa às quinquilharias da reputação, às conversas vazias da diplomacia, aos favores degradantes dos ricos, à idolatria das estruturas e à posição de proeminência. 

*** 

Lembrete: Há mais de dois mil versículos na Bíblia falando sobre o cuidado com os pobres e aproximadamente seis tratando sobre homossexualidade, por exemplo. Pense nisso e mude seu foco. 

No entanto, não temos visto nenhuma ênfase nessas questões que são prioritárias, pelo contrário, vemos as discussões se perdendo em outras demandas que não conseguem atender a quem sofre. 

Precisamos com urgência calcar nossos passos de volta nesse caminho. Fica ai mais uma provocação. 

Juliano Fabrício na nova série #provocações
Ps: toda segunda feira uma nova provocação


"Eu estava faminta,
E você formou um grupo humanitário para discutir a minha fome.

Eu estava presa,
E você saiu vagarosamente para a sua capela e orou pela minha salvação.

Eu estava nua,
E na sua mente você discutiu a moralidade da minha aparência.

Eu estava doente,
E você se ajoelhou e agradeceu a Deus por sua saúde.

Eu estava desabrigada,
E você pregou para mim sobre o abrigo espiritual do amor de Deus.

Eu estava solitária,
E você me deixou sozinha para ir orar por mim.

Você parece tão santo, tão próximo de Deus, Mas eu ainda estou muito faminta - solitária e com frio."

[Poema de uma mulher que pediu ajuda a um religioso ocupado]
John Stott / Os cristãos e os desafios contemporâneos.
 

Parece que o Criador valoriza o que nós temos a tendência de desprezar. 

As Escrituras registram por vezes que Ele escolheu situações, pessoas e realidades simples, fez-se simples quando humano em Jesus. Tal, levou o irmão Paulo a afirmar em uma carta escrita aos cristãos de Corinto que "Deus escolhe os simples para humilhar os que se pensam importantes".

E isso ocorre com quase tudo. A beleza é simples; o que faz bem à saúde brota mais facilmente; a sabedoria é popular; os que têm menos recursos, são mais solidários.

Aliás, Jesus falou sobre uma viúva pobre que foi mais generosa que os ricos. 

De fato, a rede de solidariedade que movimenta o mundo depende mais de quem tem menos e na sua simplicidade é generoso do que do pequeno grupo de abastados, mas escravos de sua própria riqueza.

Não é de hoje que sempre que se analisa o movimento de doações para qualquer causa, instituição ou pessoa, nota-se que proporcionalmente os que têm menos dão mais do que os que têm mais. A generosidade habita a liberdade, porque quem é escravo do que tem, temendo ter menos, dá menos também.

E quem tendo mais dá menos, dá do que sobra. Comparativamente, quem tendo menos dá mais, dá com esforço e isso pode demonstrar amor.

Não se engane, quando perceber que os mais simples são os mais generosos, sinta-se amado e valorizado; e quando planejar empreender algo, não nutra maiores expectativas sobre quem tem mais, porque ao Criador soou melhor contar com os que não têm, os que não são, os que não podem, para realizar seus planos na história.

E se você tem menos e se constrange pensando que o que tem pra dar não faz diferença, seja encorajado e não se envergonhe, cumpra sua missão, o pouco que você dá e faz, nas mãos do Criador, sustenta um mundo inteiro.

Juliano Fabricio concordando 



Já vimos que Deus Se revela através das Escrituras, da Criação, da Igreja, e sobretudo, através de Seu Filho Jesus Cristo. Ele é a revelação definitiva de Deus.

Porém, resta-nos uma última fronteira, onde para muitos, Deus Se mantém escondido.

Não se trata dos mistérios do Cosmos, como os buracos negros, quasares, galáxias longínquas, super-novas, etc. Também não se trata do mundo subatômico, quântico.

Trata-se, antes, daqueles com quem Cristo Se identifica de maneira mui peculiar: Os pobres e excluídos da sociedade. É lá que Deus Se mantém velado, à espera de quem O busque.

Não basta encontrar Deus nas Escrituras, na Igreja, na Criação, se não nos dispusermos a buscá-lO nos pequeninos. É assim que Ele os chama.

Veja o que Jesus diz sobre isso:

“Quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória. Todas as nações se reunião diante dele, e ele apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas. Ele porá as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda. Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Pois tive fome, e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era forasteiro e me hospedastes; estava nu, e me visitastes; preso e fostes ver-me. E perguntarão os justos: Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou preso e fomos ver-te? Ao que lhes responderão Rei: Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt.25:40).

Ao sairmos ao encontro desses pequeninos, é com Cristo que nos deparamos. Engana-se quem imagina poder encontrá-lO nas catedrais dos grandes centros urbanos. Seria como se os magos esperassem encontrar o Messias recém-nascido no palácio de Herodes. Cristo está sob as marquises dos prédios abandonados; atrás das grades das prisões públicas; nas palafitas construídas às margens das valas negras.

Não vamos simplesmente para lhes dar algo que não tenham. Vamos ao encontro de algo de que necessitamos desesperadamente.

Muitos se dedicam às obras de caridade por um desencargo de consciência. Alguns até para driblar a culpa que lhes tira o sono. Ajudar aos pobres faz com que se sintam confortáveis consigo mesmos, pertencentes a uma classe superior, ricos, qualificados. Quando deveriam, sim, sentir-se envergonhados. A pobreza denuncia nossa arrogância, nossa prepotência, a injustiça imperante no sistema do qual tiramos nossa subsistência.

Deus Se esconde de tal maneira nos pobres, que nem mesmo Seus escolhidos dão conta de reconhecerem-No. Daí a pergunta: Quando, Senhor?

Ficamos embebecidos com o espetáculo da natureza. É relativamente fácil enxergar a majestade divina num pôr-do-sol, num arco-íris, e até no canto de um passarinho. Tudo isso é muito belo, e, de fato, aponta para Deus, manifestando Seus atributos invisíveis.

Encontrá-lO nas Escrituras é uma questão de fé. Nossos olhos são desvendados pela ação do Espírito Santo, que nos faz compreender o testemunho de Deus registrado nas páginas sagradas (Pv.1:23). Porém, buscá-lO e encontrá-lO no pobre, no indefeso, no preso, no enfermo, somente através das lentes do amor.

Esta é, por assim dizer, a última fronteira na qual Deus Se mantém escondido.

Como a igreja primitiva lidou com esta verdade indiscreta e perturbadora? Ninguém melhor que Tiago, irmão do Senhor, para nos responder:

“Glorie-se o irmão de condição humilde na sua alta posição. O rico, porém, glorie-se na sua insignificância, porque ele passará como a flor da erva” (Tg.1:9-10).

O Evangelho do Reino é a mais subversiva de todas as mensagens já anunciadas entre os homens. O que os homens chamam de sabedoria, Deus chama de loucura. O que chamamos de fraqueza, Deus chama de força. O que acreditamos ser riqueza, Deus afirma que é miséria.

Seguindo a lógica do Reino, Tiago diz que o irmão de condição humilde deveria gloriar-se em sua alta posição. Não se trata de posição social, mas espiritual, uma vez que Deus o escolheu.

Paulo reverbera o mesmo ensino, quando nos conclama a conferir: “Ora, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes. Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; para que ninguém se glorie perante ele” (1 Co.1:26-29).

Gloriar-se em sua condição humilde é o mesmo que gloriar-se em Deus, em vez de em si mesmo e em seus recursos naturais.

Tiago não faz média com os ricos do seu tempo. Pelo contrário, ele os confronta. “O rico, porém, glorie-se na sua insignificância” (Tg.1:10a). Que golpe na arrogância de quem se acha importante. Que insulto à sua vaidade!

Recentemente, uma pesquisa feita pelo instituto britânico New Economics Foundation revelou que pessoas que trabalham fazendo faxina em hospitais têm mais valor para a sociedade do que os funcionários de alto escalão de um banco. Enquanto o faxineiro gera cerca de R$ 30 de valor para cada R$ 3 que recebe, o bancário com salário anual a partir de R$ 1,5 milhão) é um peso para a sociedade, custando cerca de R$ 21 para cada R$ 3 que ganham. O faxineiro rende dez fez o que ganha. O bancário dá prejuízo de sete vezes o que ganha.

Como uma igreja em nossos dias receberia o executivo de um banco? E como receberia um faxineiro? Seriam tratados de igual maneira?

Infelizmente, nos adequamos ao espírito deste mundo, e abandonamos a mensagem subversiva do reino.

Muitas igrejas têm se especializado em alcançar a classe média alta, desprezando completamente as classes mais baixas e necessitadas. Este se tornou o sonho de consumo de praticamente todos os ministérios hoje em dia. Todos querem as classes A e B. Ninguém quer as classes D e E.

As grandes denominações querem ter Sedes nos bairros mais abastados da cidade. Enquanto isso, as favelas são relegadas a segundo plano. Quando surge alguma igreja nelas, geralmente é por iniciativa dos próprios moradores. Alguns pastores até investem em igrejas nestas comunidades carentes, para evitar que seus moradores desçam para o asfalto e freqüentem seus templos luxuosos, trazendo incômodo aos seus membros mais distintos.

Este não é um problema recente. Tiago teve que enfrentá-lo nos dias da igreja primitiva.Veja o que ele diz:

“Meus irmãos, como crentes em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, não façais acepção de pessoas. Por exemplo: Se na vossa reunião entrar algum homem com anel de ouro no dedo, e com trajes de luxo, e entrar também algum pobre andrajoso, e atentardes para o que tem os trajes de luxo, e lhe disserdes: Assenta-te aqui em lugar de honra, e disserdes ao pobre: Fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do estrado dos meus pés, não fazeis distinção entre vós mesmos, e não vos tornais juízes movidos de maus pensamentos? Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus aos que são pobres aos olhos do mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrastes o pobre” (Tg.2:1-6a).

Parece que Tiago estava falando diretamente com os pastores de nossos dias, alguns dos quais chegam a destacar alguém para o ministério local por causa de suas vultuosas contribuições. Quantos diáconos precoces? Presbíteros despreparados, que mal se converteram, e logo foram içados a uma posição na igreja. Já o pobre, o que não usa roupas de grifes famosas, não só são ignorados, como às vezes são até rechaçados. Há quem até sugira: Procure outra igreja, onde as pessoas sejam do seu nível social. Aqui não é pra você.

É lamentável ter que admitir isso. Mas é a mais pura verdade. As pessoas valem o quanto pe$am.

Desonrar ao pobre é desonrar Àquele que o criou, e o escolheu para ser Seu esconderijo.

É bom que se diga que Deus não tem nada contra os ricos. Deus igualmente os criou. O que ofende a Deus é o fato de muitos se estribarem em suas riquezas materiais.

A única maneira do rico agradar a Deus é reconhecer seu estado de miséria espiritual. Ou no dizer de Tiago, sua “insignificância”. Reconhecer que todo o seu dinheiro é incapaz de garantir-lhe uma vida de significado e propósito.

Assim como há ricos que são “pobres de espírito”, há pobres que são arrogantes, e que tentam passar uma imagem de abastança. Como diria o adágio: Comem sardinha, arrotam caviar. O sábio Salomão os denuncia:“Uns se dizem ricos sem ter nada outros se dizem pobres, tendo grandes riquezas” (Pv.13:7).

Pobreza de espírito é manter-se na total dependência de Deus. Jamais jactar-se em seus próprios recursos, sejam eles parcos ou abundantes.

Se a Igreja almejar ser canal através do qual Deus Se revele ao mundo, ela terá que admitir sua pobreza. E isso equivale a tomar a contramão da postura adotada pela igreja de Laodicéia.

Leia atentamente o que Cristo diz aos laodicenses:

“Dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta. Mas não sabes que és um coitado, e miserável, e pobre, e cego, e nu. Aconselho-te que de mim compres ouro refinado no fogo, para que te enriqueças; e vestes brancas para que te vistas, e não seja manifesta a vergonha da tua nudez; e colírio, para ungires os teus olhos, a fim de que vejas” (Ap.3:17-18).

De acordo com a doutrina da confissão positiva, tão apregoada em nossos dias, a igreja de Laodicéia estava corretíssima em fazer tais “declarações de fé”. Entretanto, Cristo reprovou sua postura arrogante e auto-suficiente. Se fosse verdade que palavras positivas seriam capazes de atrair prosperidade para quem as proferisse, as Escrituras não diriam: “Em todo trabalho há proveito, mas meras palavras só conduzem à pobreza” (Pv.14:23).

Cristo chega a usar de sarcasmo com aquela igreja prepotente. Era como se Ele dissesse: Já que vocês são tão ricos, prósperos, auto-suficientes, vou lhes dar um conselho: Usem seus recursos para adquirir o que vocês ainda não têm: A verdadeira riqueza.

Paulo usa sarcasmo semelhante ao escrever para outra igreja que achava não ter falta de coisa alguma: Corinto.

“Pois quem tem faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido? Já estais fartos! Já estais ricos! Sem nós reinais! E oxalá reinásseis para que também nós reinemos convosco! Pois tenho para mim que Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos, como condenados à morte. Somos feitos espetáculos ao mundo, aos anjos e aos homens. Nós somos loucos por amor de Cristo, e vós sábios em Cristo! Nós fracos, mas vós dois fortes! Vós sois ilustres, nós desprezíveis (...) Até ao presente temos chegado a ser como o lixo deste mundo, e como a escória de todos” (1 Co.4:7-10,13b).

Qual o auto-intitulado apóstolo de nossos dias que pode apresentar-nos as mesmas credenciais? Se lermos os versos que omiti (11-12), veremos o quanto Paulo sofreu pela causa do Reino.

Precisamos descer de nossos pedestais ministeriais e admitir nossa profunda pobreza. E quando a admitimos, já não nos ofendemos quando Deus usa o mais humildes dentre os homens para nos abençoar com um prato de comida, ou qualquer outra provisão. Pergunte a Elias como ele se sentiu quando percebeu que o canal escolhido por Deus para alimentá-lo era uma viúva pobre de Sarepta.

Jesus disse que devemos aprender d’Ele que é manso e humilde de coração. Manso para repartir seu próprio pão, humilde para receber sem sentir-se constrangido. A palavra traduzida por “manso” tem a conotação de “desapegado”. Manso é aquele que já não faz questão de coisa alguma. Aquele que vê sua túnica sendo repartida entre os soldados romanos, e não a reclama para si. Já o ser humilde significa está sempre pronto a receber, mesmo quando o canal usado por Deus é de condição mais humilde que a nossa.

O chamado de Deus para a igreja deste tempo é um chamado à pobreza. Não estou falando de um voto de pobreza semelhante ao feito por monges franciscanos. Mas de uma pobreza em que admitimos que nossa suficiência vem do Senhor.

Aí poderemos nos apresentar como Paulo: “Pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo” (2 Co.6:10).

O que constrangerá o mundo quanto ao amor de Deus não serão testemunhos de pessoas que se enriqueceram depois que abraçaram a fé em Jesus, e sim de pessoas que abriram mão de tudo por amor ao seu semelhante.


“Infelizmente, o conceito verdadeiramente cristão de amor às vezes tem sido desacreditado por quem o sentimentaliza ou formaliza de uma forma ou de outra. 

Uma disposição subjetiva sincera de amar a todos não dispensa ninguém de uma ação social enérgica e sacrificial destinada a restaurar os direitos violados dos oprimidos, gerar trabalho para os desempregados, de modo que o faminto possa comer e que todos tenham uma possibilidade de ganhar um salário decente. 

Infelizmente, no passado era fácil demais para o homem bem alimentado nutrir os sentimentos mais louváveis de amor ao próximo, ignorando, ao mesmo tempo, o fato de seu irmão estar lutando para resolver problemas trágicos e insolúveis.

Já não é mais adequado apenas dar esmolas, especialmente se for só um gesto que parece dispensar qualquer outra ação social mais eficaz. Isso nem sempre resulta de uma real falta de sinceridade: mas as ‘boas obras’ que atendiam às necessidades de pequenas comunidades medievais não servem mais na fantástica crise mundial que varre toda a humanidade hoje, quando a população mundial se conta em bilhões e duplica em quarenta, vinte e até quinze anos. 

Neste caso, as dimensões do amor cristão devem se expandir e se universalizar na mesma escala do problema humano a ser enfrentado. O gesto individual, embora louvável, não será mais suficiente.”

[Reflexão em Amor e Vida, Thomas Merton]


A razão bíblica para a eliminação da desigualdade social encontra-se na origem e destino potencial do homem, assim como no amor universal de Deus pelo mundo (Jo 3.16; Mt 5.43-48). 

As raízes da civilização ocidental acham-se profundamente arraigadas na revelação bíblica de que o homem descende de um único casal (pai e mãe) e foi criado à imagem de Deus.[1] A participação comum de toda a humanidade na imago dei significa que todos os homens são herdeiros dos direitos inalienáveis da dignidade e significado intencional. Concordar com Lincoln sobre o axioma de que todos os homens foram criados iguais, mas negar a participação na imago dei significa que, em análise final, não há razão para uma responsabilidade comum entre os homens.

Em vista de o humanismo socialista ter alcançado poder, embora negando a criação do homem à imagem divina, a dignidade e igualdade humanas transformaram-se em simples slogans, muito úteis com fins de propaganda. George Orwell satirizou as consequências do socialismo, rejeitando o fundamento da igualdade em seu livro Animal Farm,[2] Djilas e, mais recentemente, A. Solzhenitsyn, descreveram as consequências históricas da sociedade ideal carente de uma base na criação divina.[3]

A relevância de longo alcance da verdade sobre as origens humanas é resumida no mandamento bíblico de amar ao próximo como a si mesmo (Lv 19.18; Mt 22.39). Todavia, o fracasso dos homens em viver como irmãos, embora a criação os tenha feito para isso, é devido ao egoísmo inerente que o pecado tornou universal. A substituição de estruturas injustas por outras mais equitativas só pode, em análise final, ser coroada de fracasso, a não ser que uma transformação bem mais profunda seja operada nos homens que as estabelecem e controlam o seu poder. Por essa razão, os evangélicos devem sempre contender que a primeira responsabilidade da igreja é a proclamação do evangelho e depender da modificação espiritual subsequente operada pelo Espírito Santo, a fim de criar uma comunidade em que o não convertido possa ver um modelo do reino de Deus.

Os interesses da justiça social devem, portanto, ser sempre mantidos numa relação subordinada ao evangelismo, que é o meio utilizado por Deus para restaurar a imagem divina através da habitação interior de Cristo (Cl 3.10). Podemos afirmar com propriedade que o alvo da humanidade é a “perfeição comunitária”[4] daqueles que se tornaram um Corpo mediante a ação incorporadora do Espírito Santo (1Co 12.13). O Deus que deu aos pecadores o seu dom mais precioso, o Filho, não pode aprovar a indiferença à matéria em que um número incontável de pessoas arrasta sua torturada existência, aguardando sem esperança que o Reino lhes seja oferecido. Por essa razão, Jesus Cristo ordena a seus seguidores que vão ao mundo inteiro e façam discípulos de todas as nações, ensinando-os a obedecerem a todos os mandamentos que lhes deu (Mt 28.19,20). Enquanto os liberais socialistas classificam as desigualdades sociais como criminosos, um insulto ao homem e a Deus,[5] os evangélicos de modo incongruente parecem aceitar com grande tranquilidade o fato de grande parte desse mesmo mundo não ter ouvido ainda a mensagem da salvação. Por outro lado, onde o evangelho foi proclamado e aceito, nova alegria e esperança substituíram o desespero predominante.[6] Os traços da imagem de Deus começaram a surgir (cf. Rm 8.28s com 2Co 3.2,18).
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[1]A teoria da evolução explica o crescimento do homem pela sobrevivência ocasional dos mais fortes e aptos. Torna-se absolutamente impossível argumentar a favor da justiça social humana, caso essa teoria seja aceita. O conceito do homem proposto por Marx, que negou qualquer essência no ser humano, foi cuidadosamente analisado por J. Andrew KIRK: “Se Marx tivesse feito uso de categorias bíblicas para se expressar, ele teria negado que o homem foi feito à imagem de um Deus pessoal e infinito [...]; o Homem pertence exclusivamente à matéria”, em “Significado do homem no debate entre o cristianismo e Marx”, Theological Fraternity Bulletin, 1974, n. 2. Segundo Marx, o homem é o agregado de seus relacionamentos sociais (ibid, p. 5), capaz de reflexão e autorrealização por meio do trabalho e fazendo a história. O homem é então verdadeiramente homem quando está transformando o mundo natural (ibid). Reinhold Niebuhr interpretou o “mito” da criação do homem à imagem de Deus como o paradoxo fundamental da finitude e liberdade. V. Dennis P. McCANN, Christian Realism and Liberation Theology, Maryknoll: Orbis, 1981, p. 56.

[2]New York: Signet, 1954. [Edição em português: A revolução dos bichos, trad. Heitor Aquino Ferreira, São Paulo: Companhia das Letras, 2007]

[3]M. DJILAS, The New Class: An Analysis of the Communist System, New York: Praeger, 1957, 1976, p. 26. Este livro e lançamentos mais recentes, tais como os livros de A. Solzhenitsyn mostram que um sistema idealista não é incentivo suficiente para garantir a justiça na sociedade. Foi agora verificado historicamente que os líderes das sociedades comunistas têm cometido atrocidades inomináveis na ânsia de atingir o seu ideal superior. V. ainda, J. A. KIRK, “The Meaning of Man in the Debate Between Christianity and Marxism” Themelios 1.2, Spring 1976, p. 41-49; 1.3, Summer 1976, p. 85-93.

[4]Emil BRUNNER, Justice and the Social Order, New York: Harper, 1945, p. 45. Brunner salienta de modo positivo que a comunidade só pode existir quando há uma diferença. Sem diferença pode haver unidade, mas não comunidade, a qual pressupõe reciprocidade em dar e receber.

[5]V. Gustavo GUTIÉRREZ, A Theology of Liberation, Maryknoll: Orbis, 1973, p. 291ss. [Edição em português: Teologia da libertação, São Paulo: Loyola, 2000]

[6]A imprensa secular no Brasil relatou esse fenômeno com respeito aos pentecostais em editoriais nas revistas Manchete e Veja.

Por Tim Keller, trecho do 1º capítulo do livro “Justiça Generosa”, lançamento das Edições Vida nova. via: voltemosaoevangelho


Somos menos humanos do que gostaríamos, porque não sabemos ainda o que é ser humano.

Os genes que nos faz humanos são os mais recentes, não estão tão adaptados e sedimentados.

Muitos genes animais com o tempo serão desligados, como 90% do genoma humano que é lixo genético que nós carregamos sem necessidade.

Fidelidade masculina é um comportamento humano recente, um gene por assim dizer ainda em desenvolvimento.

Faz muito mais sentido hoje um homem ser sexualmente fiel, do que gastar o seu tempo em motéis seduzindo mulheres e torcendo para que elas nunca engravidem.

Mas nem todos adquiriram o gene da fidelidade, ou ainda tem o gene da promiscuidade animal ligado, por isto talvez ele tenha sofrido tantas recaídas, perdendo a sua batalha com os genes animais.

Somos menos humanos do que gostaríamos, porque não sabemos ainda o que é ser humano.

Mais um exemplo que discutiremos em detalhe mais adiante.

Muitos intelectuais brasileiros, sociólogos e historiadores fazem suas ciências com a premissa de que o ser humano é egoísta.

Que o ser humano é ganancioso, que só busca o lucro, danem-se os outros.

Rose Marie Muraro, é mais do que taxativa, “homem é egoísta, mulher é altruísta”.

Uma frase ofensiva aos homens, o que provavelmente era a intenção da autora, mas que não se justifica no mundo acadêmico, pautado como deveria ser na ciência.

Hoje, geneticista sabe que um antepassado nosso egoísta não sobreviveria sequer um único dia, ninguém conseguiria caçar mamutes sozinho.

Até hoje, quem quiser produzir tudo sozinho produzindo bens somente para si morrerá de fome.

É o triste futuro de todos que acreditam no “artesanato”, na “economia solidária”, no professor de universidade que dá aula “sozinho”.

O que nos faz humanos não é o gene do egoísmo é o gene da cooperação.

Cooperação que vai desde a relação homem mulher na família até a cooperação das 200 pessoas que trabalham no hospital do seu bairro.

Se tiver um funcionário egoísta ou se o marido for egoísta e a mulher também, nem preciso dizer o que irá acontecer.

Cooperamos porque queremos o bem de todos, e é assim que nós avançamos, pela cooperação e não pelo egoísmo.

Por isto, a Ciência da Administração está lentamente substituindo a Economia, a Política e a Sociologia. Administração lida com a cooperação de pessoas estranhas entre si, 2.000 a 30.000 delas.

Não que ela seja uma ciência superior, mas a Administração sempre partiu do princípio da cooperação como força motriz que rege o movimento civilizatório, e o administrador sempre se preocupou em aprimorá-la, estimulá-la e incentivá-la.

Hoje, a ciência da administração é a terceira opção do jovem brasileiro, depois de Medicina e Advocacia.

Se o seu futuro marido ou esposa é formado em Administração, seu casamento já começou na trilha certa.

Você terá alguém que acha que a essência do ser humano é a cooperação, e não a centralização do poder na mão de um dos dois, do homem provavelmente.


Conheça um pouco mais de Eugene Cho e da ONG One Day´s Wages.

Eugene Cho nasceu na Coreia do Sul e imigrou para os Estados Unidos aos 6 anos de idade. Cresceu em São Francisco. Estudou teatro e psicologia na UC Davis e é graduado em teologia pelo Princeton Seminary. É casado há 16 anos com Minhee, que partilha com ele o trabalho religioso e social, e tem 3 filhos.

Segundo Eugene, após fazer uma reflexão espiritual, teve a visão do caminho que seguiria: doou todo o salário da família dele no ano de 2009 para a causa do fim da pobreza global. Ele foi o primeiro, colocando US$ 68 mil. Depois, passou a incentivar que pessoas doem o salário de um dia no ano, aproximadamente 0,4% dos seus ganhos a essas causas.

Sua ONG tem um sistema completamente transparente e já foi citada pelos principais veículos de notícias dos Estados Unidos. A entidade tem até um aplicativo para celular que ajuda no cálculo do valor da contribuição. As pessoas podem escolher exatamente para que causa querem doar. A prestação de contas ação de contas é online, com total transparência.



Enfrentar dificuldades é algo normal para aqueles que estão vivos. Muitos as enfrentam sozinhos, esquecidos e – por que não dizer? – sem um fio de esperança.

Diante de tanta dor, seja física ou emocional, sou levado a pensar que por vezes não tenho um olhar de compaixão, não saio da minha pequena “bolha” e não vou ao encontro das necessidades expostas em cada esquina. Ao nos depararmos com as necessidades reais é como se ocorresse uma paralisia, pois pensamos: “são tantas demandas; o que posso eu fazer?”.

Ao ler a história de homens e mulheres que dedicaram suas vidas a atender seus semelhantes me indago mais uma vez se tenho sido um verdadeiro discípulo. Será que esse questionamento nunca vai sair da minha mente?

Ao nos identificarmos como “discípulos”, nossas ações devem falar mais alto que nossas palavras. Pequenos gestos podem verdadeiramente transformar vidas e o mundo que nos cerca. Será mesmo isso apenas mais um desses chavões?

Quem já foi alcançado por uma mão estendida, quem já recebeu um prato de comida, quem já foi escutado num momento de profundo desespero, percebe o quanto essas atitudes trouxeram alívio, significado e vida. A força que vem do outro – mesmo sendo ele um desconhecido – nos mostra que “não precisamos morrer para ver Deus” (Não existe amor em SP, Criolo).

A vida verdadeira que eu e você experimentamos em Cristo deve ser exalada, compartilhada e oferecida ao próximo. Permita que todos experimentem o amor e construamos um jardim de flores vivas.

“Quando eu flor…

Quando tu flores…

E ele flor…

Nós flores seremos, e o mundo florescerá!”

(Autor desconhecido)



O princípio bíblico de igualdade é citado por autores e lideranças políticas latino-americanas como um exemplo a ser seguido, uma base sobre a qual devemos construir nossas políticas e ações de combate à exploração capitalista, desumana, em que o trabalhador figura como um mero serviçal da oligarquia, um instrumento por meio do qual o lucro e a perpetuação no poder são garantidos. 

A sociedade contemporânea caracteriza-se pela extrema desigualdade entre ricos e pobres, pela ausência de recursos básicos, garantidos por lei, mas que na prática não alcançam as camadas mais pobres da sociedade. Emprego, alimentação, saúde, educação, habitação, segurança, são elementos defendidos por “movimentos sociais”, dos quais muitos evangélicos se veem engajados. 

Auguste Comte destacou-se como um defensor da organização da sociedade como um elemento vital ao progresso, apoiado no desenvolvimento industrial, tecnológico. Desenvolveu o pensamento positivista que, no Brasil, viria a ser representado pela Igreja Positivista do Brasil, uma das responsáveis pela indução ao republicanismo. Émile Durkheim, por sua vez, fundamentou as teorias sociológicas a partir de um estudo realizado em uma pequena comunidade da Austrália. A religião, para Durkheim, possui um elemento social, de aglutinação, em que a humanidade se vê unida, conectada. Tanto Durkheim quanto Comte focou, em suas análises sociológicas, o aspecto material, racional, inter-relacional da prática religiosa. Marx, apesar de sua oposição à religião, era um defensor da igualdade social, dos direitos universais, como o acesso à educação.

O século XIX caracterizou-se, portanto, como um período racional, onde mesmo a religião era tida como um elemento de aglutinação social, sem o aspecto espiritual. Max Weber e outros pensadores europeus, como Montesquieu, Henry Thomas Buckle e John Keats, associaram o protestantismo ao surgimento e desenvolvimento do capitalismo, do espírito comercial. Em sua obra, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Weber analisa o relacionamento entre protestantes norte-americanos e europeus com o capitalismo, e conclui que o puritanismo teve, sim, um papel central no surgimento do modelo econômico - inclusive a partir de Adam Smith que, em 1737, na Universidade de Glasow, teria sido influenciado pelo professor Francis Hutcheson, “um dos maiores protestantes da Filosofia do Direito Natural”. Smith é reconhecido como o pai da economia moderna e o mais importante teórico do liberalismo econômico. 

Embora Max Weber e outros associarem o puritanismo protestante ao espírito capitalista, o protestantismo histórico teve um papel fundamental na inclusão de diversos cidadãos na educação, por meio de escolas e universidades; na saúde, com hospitais missionários; na luta pelos direitos trabalhistas. Robert Kalley nasceu no subúrbio de Glasgow, Escócia. Aos vinte anos diplomou-se em cirurgia geral e farmácia pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de Glasgow. Convertido após algumas leituras do Evangelho, Kalley se disse chamado à obra missionária. Admitido como médico missionário pela Sociedade Missionária de Londres, em 1840 Kalley abriu um pequeno hospital com doze leitos em Funchal, na Ilha da Madeira, onde atendia, gratuitamente, os pobres da comunidade. Outro expoente na luta pelos direitos sociais foi o norte-americano Martin Luther King. Ministro batista, King foi o líder da Marcha sobre Washington de 1963, onde fez seu clássico discurso, I Have a Dream (“Eu tenho um sonho”), que clamava pelos direitos trabalhistas e sociais dos negros. 

Fundado em 1865, em Londres, Inglaterra, pelo ministro metodista, William Booth, e sua esposa, Catherine Mumford, o Exército de Salvação surgiu como uma opção de auxílio aos trabalhadores que se viam em situação de vulnerabilidade social, decorrente das más condições de moradia e do baixo salário pago pelas empresas. Era o auge da Revolução Industrial. Presente em 126 países, o Exército de Salvação chegou ao Brasil em 1922, e atualmente atua a partir de sedes regionais e da sede nacional, em São Paulo. Suas atividades resumem-se à coleta de doações (roupas, móveis, utensílios), assistência à família, à manutenção de abrigos para crianças, mulheres e idosos em situação de risco, à promoção da educação, de cursos profissionalizantes, de seminários.

Não obstante os trabalhos desenvolvidos pelo Exército de Salvação e outras associações protestantes é discutível o fato de que algumas denominações atuam simplesmente como “entidades assistenciais”, semelhantes aos sindicatos, que oferecem corte de cabelo, assistência jurídica e odontológica, mas com pouco impacto nas questões diretamente ligadas aos direitos trabalhistas, como aumento salarial. Não é uma generalização, dado o fato de que movimentos como a ONG Rio da Paz, fundada em 2007 pelo presbiteriano Antonio Carlos Costa, atuam na defesa dos direitos humanos. O Rio da Paz promove protestos contra o aumento da violência, no Rio de Janeiro, e teve participações nas manifestações populares que tomaram as ruas do Brasil entre os meses de junho e julho, por melhorias na saúde, educação e segurança pública.

Outro movimento que reúne protestantes históricos e pentecostais é o EPJ (Evangélicos Pela Justiça), que afirma ter como objetivo dialogar, propor melhorias e realizar atividades que contribuam para a redução dos problemas políticos e sociais existentes que geram e perpetuam as desigualdades sociais e injustiças em nosso país. Dentre as injustiças, o EPJ destaca as questões referentes à pobreza, violência, agressões ao meio ambiente, baixa qualidade da educação e da saúde pública, concentração de riqueza, injusta distribuição dos espaços urbano e rural, desamparo da juventude, que requerem intervenção política dos evangélico-protestantes. Com presença em três capitais (Brasília, Recife e Belém) e em duas cidades (São Bernardo do Campo, SP, e Londrina, PR), o EPJ realiza reuniões, encontros com autoridades políticas e pesquisas.

Embora a existência de grupos assistencialistas, o protestantismo histórico é uma referência em questões sociais e tem sua marca registrada no Brasil, como em organizações como a Universidade Metodista de São Paulo, que é referência em educação superior, no ABC paulista. O Rio da Paz e o EPJ são frutos de uma análise mais profunda da atuação protestante na sociedade brasileira. Situação diferente é detectada no pentecostalismo. Apesar de um crescimento vertiginoso o pentecostalismo está aquém no quesito social, sendo caracterizado como um movimento de grandes templos, porém com pequenas ações sociais. Geralmente são administradas casas de recuperação, asilos e creches, mas em quantidade e qualidade inferiores as mantidas por outras denominações protestantes, como batistas, presbiterianas e metodistas. A participação na educação e na reivindicação por melhorias em outras áreas igualmente importantes também não são detectadas nas igrejas pentecostais, mesmo que mantidas representações políticas. 

Johnny Bernardo é jornalista, pesquisador da religiosidade brasileira


MAIS QUE APENAS DEFENDER O SEU

Liberte os que estão são sendo levados para a morte; socorra os que estão caminhando trêmulos para a matança! Mesmo que você diga: “Não sabíamos o que estava acontecendo!” Provérbios 24.11 

Quanto mais uma sociedade é marcada pela corrupção, menores são seus referenciais de justiça. Passamos a festejar gente que encontra uma carteira na rua e devolve ao dono. Ora, não deveríamos achar isso a coisa mais normal do mundo? Quem encontra na rua algo que não é seu, que pode ser identificado, não deve entregar ao dono?

Não cometer crimes, devolver uma carteira perdida, enfim, são atitudes que não passam de nossa obrigação. Por isso, a honra de uma pessoa não é medida por suas ações ordinárias e obrigatórias, mas pelo seu senso de que a justiça não é um privilégio para si ou para poucos, mas é uma questão de humanidade. Quem entende isso, não consegue recolher a mão quando vê qualquer um que seja alvo de injustiça.

Há pessoas que deliberadamente fazem o mal. Outras que não querem o mal a ninguém, cuidam de si e procuram não dar trabalho aos outros. E ainda outras que promovem a justiça e o bem, sem omissão, praticando boas e voluntárias ações.

Juliano Fabricio lendo @provérbios (ouvi isso em uma pregação do ©Alexandre Robles)

    


Não comente antes de ler. 

Este é o meu primeiro pedido, porque sei que muitos terão vontade de fazer isso após verem o título desse post. Mas, por favor, tente aguentar só um pouquinho a necessidade de impor a sua opinião e sua “moral” antes de entender o que o outro, nesse caso eu, pensa. Sei que com esse texto estou abrindo um imenso teto de vidro para pedras que virão de variados lados, porém, acho importante lançar este debate no meio das mulheres cristãs.

Eu não sou a favor do aborto, mas sou a favor da legalização dele até o início do terceiro mês de gravidez, para que mulheres não continuem morrendo após a intervenção em clínicas clandestinas e em condições precárias, para que mulheres não continuem sendo marginalizadas após um ato de escolha sobre o seu corpo, com base nas suas crenças e realidade. Sou absolutamente contra a imposição da minha fé e meus preceitos morais a todxs.

Se Deus, que é Deus, deu livre arbítrio aos seres humanos, por que eu, que sou apenas uma “pessoa”, defenderia intervenções legais que limitam e, muitas vezes, condenam mulheres à morte e a complicações psicológicas e de saúde? Com base na minha fé eu faço as minhas escolhas e espero que todos tenham esse direito. Porém, sei bem que como sociedade temos que viver de acordo com algumas regras, baseadas em algo comum a todos, como a racionalidade, por isso a observação sobre a legalização até a 8ª semana de gestação, quando o embrião é o que eu chamo de “possibilidade de vida”, não um “ser vivo”, já que ainda não tem atividade cerebral.

Segura o dedo antes de me xingar! Quando uma pessoa deixa de ter atividade cerebral nós a consideramos morta, não é? É morte cerebral e ninguém discute isso. Por que eu deveria tratar um embrião – ele ainda não é nem um feto -, como um ser humano vivo, se ele não tem sinapse e é apenas uma possibilidade de vida, que depende 100% do corpo da mulher para se desenvolver? Um embrião não se desenvolve se a mulher que o carrega não estiver… Viva. Quem nós devemos proteger, então?

Sempre quando leio “a favor da vida”, fico pensando porque quem consegue ver vida até em um embrião não consegue enxergar o óbvio, a vida da mulher que o carrega, mesmo sem querer. “Mas ela deveria ter evitado.” Você sabe em que contexto esse embrião foi gerado? Em uma cultura em que a mulher é “sempre culpada”, não é de se estranhar que ninguém se dê ao trabalho de olhar de forma mais ampla a questão do aborto e da sexualidade no Brasil e no mundo.


A violência sexual contra mulheres ainda é um tabu para boa parte da nossa sociedade, que prefere dizer que nós “provocamos”, “procuramos”, “não evitamos”… A encarar que NADA justifica um estupro. “Ah, mas nesse caso a mulher já pode abortar.” Pode mesmo? Mas só se ela assumir que foi estuprada e estender a humilhação de ter sido violentada por delegacias machistas, juizados de um estado que finge ser laico, hospitais superlotados, médicos que não querem realizar a intervenção, os vizinhos que “desconfiam”, religiosos que a condenam…? E só se der a “sorte” de morar em uma cidade com centros de referência, não é?

É injusto. É violento. É desumano. E se eu sou cristã e a bíblia diz que nós vivemos através da compaixão, da misericórdia e do perdão que compartilhamos, não posso aceitar isso. E mais, não posso apoiar que o estado intervenha nas decisões de uma mulher com base nas minhas crenças. Porque, como o Pr. Ed René Kivitz colocou em uma entrevista, “se quiserem construir uma sociedade que apedreja e condena pecadores, nós vamos apedrejar uns aos outros e o último apedrejará a si mesmo e morrerá. Não se constrói uma sociedade que discute pecado e penaliza o pecado. Não se deve julgar, mas discernir o que é certo, o que eu quero ou não pra minha vida, e respeitar e acolher o outro que escolhe diferente”.

É disso que estou falando, do direito do outro fazer inclusive o que eu acho errado. Até porque faço várias coisas que são condenáveis em outras religiões e, sendo sincera, na minha também. E ficaria muito incomodada se o estado quisesse tomar o lugar de Deus e me julgar por esses atos ou impor como devo ou não me relacionar com o meu corpo. “Mas isso é só a sua opinião contra a bíblia”, não, isso é só a minha opinião com base na história de Jesus que é contada na bíblia. Duvida? Então leia a passagem João 8, do versículo 1 ao 11.

O meu Deus é o que não deixa uma mulher ser apedrejada em praça pública, que levanta uma juíza como Débora para libertar seu povo, que escolhe uma prostituta para andar ao seu lado, que cura uma mulher que todos evitavam, que ressuscita/sara uma menina considerada morta, que ama e honra as mulheres. Não o que as subestima ou tenta domá-las, esses são os religiosos, que não merecem a minha fé, voto ou apoio.

Talita Ribeiro, no Cem Homens


Não tem contaram? Amar ao próximo é a nova moda, a nova tendência do inverno. É ligar pro 155 e informar onde estão os moradores de rua pra alguém ir busca-los ou agasalha-los, pois melhor que fazer, é ligar pra alguém que vai fazê-lo.

Como assim, você não tá sabendo?! É moda também ser voluntário, ajudar as pessoas na rua, levar pão, sopa, agasalho, virar as costas e ir embora.

Vem gente, vamos amar ao próximo, ajudar a quem precisa, somos todos humanidade, e nisso, uma unidade.

Escolhe o melhor dia pra você, a atividade que prefere fazer, e vai cumprir sua penitência, alivia sua culpa, cumprir seu “karma”, e nunca mais aparece. Afinal, necessidade básica é comida e roupa. Atenção? não, por favor, cuidado também não, aí cada um que providencia o seu, também não sou um “Cristo” né?!

Mesmo porque, a moda de amar ao próximo, se ninguém explicou ainda, é amar o próximo que não é tão próximo. É seguir os passos de Jesus e ajudar os mais necessitados, visitar viúvas, órfãos, e deixá-los a míngua o resto do ano. E que no resto do ano eles se virem, também tenho a minha vida, as minhas prioridades, a minha agenda gospel de shows e eventos pra curtir, viagens para pregar o evangelho, pregar que Jesus é a novidade, é a vida, e a partir do momento que você aceitá-lo, ele vira notícia velha, e eu posso ir pra minha casa contente, afinal, não serei cobrado sobre isso no juízo final.

Amar ao próximo, afinal, é mais fácil quando ele não é assim, tão próximo. É mais tranquilo amar o morador de rua, com quem eu nunca convivo, mas me torno altruísta o suficiente pra gastar com ele ainda menos do que dou como dízimo, do que amar ao meu parente, ou o vizinho inconveniente que me faz pecar em pensamento toda vez que me irrita, ou a pessoa pentelha que postou isso no facebook, atrapalhando o horário do meu entretenimento.

Bianca Pedral via: rennovario



-Moço... posso lhe pedir um favor? - disse a desconhecida magricela de cabelos desgrenhados, com sua criança suja e magra a tiracolo.

Foi durante a hora do almoço que ouvi a história, enquanto caminhávamos pelas ruas do centro de São Caetano do Sul para fazer a digestão.

Renato, a pessoa que me contou o episódio, um corintiano do qual nunca ouvi falar sobre religião ou política, disse estar distraído diante de seu prato de comida quando a moça o abordou. Na época, ele prestava serviços de informática em uma rede de lojas de varejo e parou naquela filial para almoçar em um restaurante barato da região. Ele nem percebeu quando ela entrou no estabelecimento e seguiu em direção à sua mesa. 

-Pois não? - respondeu ele, sem se atentar a quem era e ao que veio.

- Se sobrar alguma coisa do seu prato, o senhor poderia deixar no prato ao invés de jogar fora?

A comida entalou na garganta, assim como meus olhos marejaram ao ouvir o relato. A mulher estava faminta dentro de um restaurante de periferia de São Paulo: ela só queria o resto da comida, caso sobrasse um osso de frango e umas colheradas de macarrão.

Quem mora por aqui está acostumado com os pedintes profissionais, mas naquele momento, Renato não parou para pensar nisso. Levantou-se, mandou que ela senta-se com sua criança de colo numa mesa ao lado, e pediu para o garçom servisse-a com o que ela quisesse do cardápio.

Ela sorria e chorava diante da refeição servida, e comia desesperadamente, intercalando colheradas de feijão e arroz com a criança esfomeada de olhos esbugalhados que permanecia de boca arreganhada na esperança da próxima porção de comida.

- Olha moço... posso comer lá fora – disse ela ao garçom – só permite que eu leve o prato até a calçada, que eu devolvo assim que acabar...

Renato observava prazerosamente a moça matar a fome de sua mesa e, ao ouvir isso, de lá mesmo disse a ela:

-Eu estou pagando e você come aqui como qualquer cliente. Coma e beba...

Dizendo isso, saiu em direção ao caixa. Na hora de pagar, o dono do estabelecimento não deixou:

-Vi tudo, a moça foi sincera. Talvez, se ela viesse me pedir, eu não teria dado nada e a enxotaria. Mas quero eu arcar com essa despesa. Obrigado.

-Apesar dos anos, eu ainda sou capaz de lembrar o rosto dela e de como é bom ver alguém valorizar um prato de comida – disse ele enquanto eu fingia olhar uma vitrine, para que não visse que eu estava aos prantos.

Pensei nas bobagens que me tiram do sério, do meu mundinho onde me aborreço com problemas de um carro com um novo ruído, um computador lento, um celular que não é de ultima geração, aquela viagem que furou por ter que trabalhar no dia, um telefonema mal-criado...

Menos de quinze reais foram suficientes para realizar a vida de uma pessoa. Não falo da moça que naquele dia matou a fome dela e de seu filho. Refiro-me ao prazer sem explicações que aquele homem sentiu ao dar uma refeição a uma miserável estranha e seu filho esquelético.

Ele contou aquela experiência como quem ganha um grande prêmio e eu, emocionado, tentei ouvi-la sem deixar que visse minhas lágrimas e trouxe para que outros se servissem dessa bela refeição. 

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