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Filhos

P.s. 1: uma das grandes alegrias de conviver com todo tipo de gente é poder confrontar ideias, mas saber que obrigatoriamente teremos que continuar convivendo com as pessoas que discordam de nós. Política começa assim. Acho que estão no caminho certo.

P.s. 2: Virar o mundo de ponta-cabeça. Sabe por que? Porque é hora de lutar contra a permanência. Hora de reinventar o mundo. Desinventar a nós mesmos. 

P.s. 3: Aqui a gente olha primeiro para o outro, antes de olhar no espelho. É no outro que nos reconhecemos, evoluímos, criamos em nós os sentimentos de respeito e tolerância – que anda escasso. Outra coisa, aqui em casa a política é para o bem-estar coletivo. Os indivíduos aqui são respeitados, mas apenas à medida que também respeitem a opinião do outro, que saibam ouvir, olhar nos olhos. Sem isso, não há diálogo. Não há exercício político que funcione diante da truculência, sabe? É como se a gente estivesse sempre aberto para ouvir o outro, filhos, mas só se ele falar – e não rosnar. [Lembrem-se disso!!!]

P.s. 4: A grande vantagem de ter governantes que tenham o mínimo de respeito com a maioria excluída (e não com as minorias acomodadas nos seus devaneios de riqueza, de compra, de posse – de, enfim, pensamento raso, egoísta e, sobretudo, insensível) é garantir uma certa preocupação com a vida de quem mais precisa – em detrimento da prática reacionária de olhar para a vida de quem já tem mais do que precisa. [Acreditamos nisso]

Juliano Fabricio
porque eles precisam apenas ser lembrados...


Santo Agostinho sugere que há dois tipos de política. 

A política do “poder do amor”, a que ele deu o nome de Cidade de Deus, e a política do “amor ao poder”, a que ele deu o nome de Cidade dos Homens.

Tudo tem a ver com a forma como “poder” e “amor” se relacionam. 

Pensada utopicamente, a política do “poder do amor” pode ser definida como a arte da jardinagem aplicada às coisas públicas. Jardinagem é a arte e a técnica que busca estabelecer harmonia entre o homem e a natureza. Jardins são espaços que o amor modelou no sentido de que sejam belos e seguros.

Neles não existe o medo e o corpo experimenta a exuberância dos sentidos. Nos jardins, o homem e a natureza estão reconciliados, são amigos. Nessa política, o poder é ferramenta e instrumento do amor: esse é o sentido da ética. Ética é, sempre, limitação do poder. 

Pensada realisticamente, a “política do amor ao poder” é o conjunto de artimanhas que tem por objetivo estabelecer o poder de um grupo sobre um determinado território. Nessa política, os sonhos de amor estão subordinados e a serviço do poder. O que significa que nela o poder é o valor supremo e não existe uma ética que o controle.

Juliano Fabricio
lendo o bom e velho Rubem Alves


Agora, enquanto reflito nas histórias de Jesus a respeito do reino, percebo que muita da intranquilidade entre os cristãos de hoje surge de uma confusão entre os dois reinos, o visível e o invisível. 

Cada vez que uma eleição se aproxima, os cristãos discutem se esse ou aquele candidato é o "homem de Deus, ou no mínimo melhor para os interesses evangélicos".

Projetando-me de volta aos tempos de Jesus, tenho dificuldade de imaginá-lo ponderando se Tibério, Otávio ou Júlio Cesar... — sem mencionar Nero ou Calígula — era o "homem de Deus" para o império. O que acontecia em Roma estava num plano completamente diferente do plano do reino de Deus.

Infelizmente a igreja perde de vista sua missão original à medida que se aproxima do centro de poder. 

Testemunham isso a época de Constantino, a Idade das Trevas e a Europa de um pouco antes da Reforma. Pode ser que estejamos vendo a história se repetir. A igreja tem enfrentado a tentação constante de se transformar no "patrulhamento moral" da sociedade.

O relacionamento íntimo entre a igreja e o governo tem resultado na perda de respeito pela igreja. 

Forçar uma cristianização é sempre uma batalha perdida.

Como disse Karl Barth: "[a igreja] existe... para estabelecer no mundo um novo sinal que é radicalmente diferente da maneira [do mundo] e que o contradiz de uma forma que é cheia de promessas".

Lembretes úteis: 

• Se as portas do inferno não vão prevalecer contra a igreja, o cenário político atual dificilmente vai representar uma ameaça significativa. [Sem medos]

• Talvez a política tenha demonstrado ser tal armadilha para a igreja porque o poder raramente coexiste com o amor. Nossos melhores esforços na sociedade mutante falharão a não ser que a igreja possa ensinar o mundo a amar.

• A escada do poder sobe, a escada da graça desce.

• Os cristãos deveriam se envolver em política e usar seus princípios cristãos, sua moralidade e sua ética no processo. Mas eles não deveriam pular neste meio, dizendo que suas crenças são a única saída possível".

• Política deveria ser feita com integridade, transparência e idealismo. Quem joga sujo para levar o título, certamente jogará sujo enquanto estiver no poder. Como dizia Gandhi, "o que destrói a humanidade é a política sem princípios, o prazer sem compromisso, a riqueza sem trabalho, a sabedoria sem caráter, os negócios sem moral, a ciência sem humanidade e a oração sem amor."

• Não seremos ajudados pelo poder, apenas pela renúncia de poder, da parte de Deus, por amor de nós. 

O poder nos força a mudar; apenas o amor pode nos mover a mudar. 

O poder afeta o comportamento; o amor afeta o coração.

• “A igreja deve ser lembrada de que não é a mestra ou a serva do Estado, mas sim a sua consciência… Ela deve ser a guia e a crítica do Estado, nunca sua ferramenta. Se a igreja não recuperar seu fervor profético, ela se tornará um clube social irrelevante, sem autoridade moral ou espiritual.” Pr. Martin Luther King, Jr (1963), Strength To Love.

*Reflitam, pois esse tiro pode vir contra nós*

Juliano Fabricio 
“Vendo o futuro repetir o passado”


A moralidade "vale-tudo" de religiosos e políticos de esquerda é equivalente ao moralismo da direita. 

A aceitação não crítica de qualquer uma das linhas partidárias é uma abdicação idólatra à essência da identidade como filho de Deus. Nem o pó mágico liberal nem o jogo pesado dos conservadores se referem à dignidade humana, que sempre está vestida com farrapos.

Os filhos de DEUS encontram uma terceira opção. São guiados pela Palavra de Deus e apenas por ela. Todos os sistemas religiosos e políticos, tanto de direita quanto de esquerda, são obras de seres humanos. Os filhos de Deus não venderão seus direitos à primogenitura por nenhum prato de ensopado, seja conservador ou liberal. Eles se apegam à liberdade em Cristo para viver o evangelho — não contaminados pela má qualidade cultural, pelos destroços de naufrágio político e pelas hipocrisias religiosas.

Por exemplo: Os que estão inclinados a entregar os gays aos torturadores não podem reivindicar nenhuma autoridade moral sobre os filhos de DEUS. Jesus enxergava essas figuras obscurecidas como os corruptores da natureza essencial da religião de seu tempo. Tal religião restrita e separatista é um lugar perdido, um Éden coberto de mato, uma igreja em que as pessoas experimentam, solitariamente, uma alienação espiritual que as distancia de seus melhores talentos humanos.

A ordem de Jesus para nos amarmos uns aos outros nunca está circunscrita à nacionalidade, ao status, à origem étnica, à preferência sexual ou à amabilidade inerente ao "outro". O outro, aquele que reclama meu amor, é qualquer um a quem estou apto a reagir, como ilustra claramente a parábola do bom samaritano. "Qual destes três, em sua opinião, foi prestativo ao homem atacado pelos ladrões?", perguntou Jesus. A resposta foi: "Aquele que o tratou com compaixão". Jesus disse a eles: "Vão, e façam o mesmo". (Essa é a terceira opção)

"Venha o teu Reino?" O que faz o Reino vir é a sincera compaixão: um caminho de ternura que não conhece fronteiras, rótulos, compartimentagem nem divisões sectárias. Jesus, a face humana de Deus, nos convida a uma reflexão aprofundada sobre a natureza do discipulado verdadeiro e do estilo de vida radical de um filho de Deus.

Juliano Fabrício na nova série #provocações
influência boa do Brennan Manning.
[toda segunda uma nova provocação]


“A igreja deve ser lembrada de que não é a mestra ou a serva do Estado, mas sim a sua consciência… Ela deve ser a guia e a crítica do Estado, nunca sua ferramenta. Se a igreja não recuperar seu fervor profético, ela se tornará um clube social irrelevante, sem autoridade moral ou espiritual.”

Pr. Martin Luther King, Jr (1963), Strength To Love.


O POVO - Rubem Alves

Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece", observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo.

Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega:

"Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos". Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem.

Vou dizer aquilo sobre o que me calei: "O povo unido jamais será vencido", é disso que eu tenho medo.

Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o "povo" tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo. Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica.

Nada mais distante dos textos bíblicos.

Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas.

Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se integrasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.

E a história do profeta Oséias, homem apaixonado!

Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava!

Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão.

Até que ela o abandonou.

Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos. E o que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: "Agora você será minha para sempre.".

Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.

Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável.

O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras.

As mentiras são doces; a verdade é amarga.

Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo.

No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões.

E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos!

As coisas mudaram.

Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.

O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas.

As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.

Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro "O Homem Moral e a Sociedade Imoral" observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se "responsáveis" por aquilo que fazem.

Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas.

Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis.

Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.

Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade.

É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia.

Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado.

O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão.

Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens.

Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras.

O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam.

Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade.

Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.

Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo.

Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás.

Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária.

Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.

O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer.

O povo, unido, jamais será vencido!

Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos. Mas, que posso fazer?

Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol.

Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de "boca-de-forno", à semelhança do que aconteceu na China.

De vez em quando, raramente, o povo fica bonito.

Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: "Caminhando e cantando e seguindo a canção.". Isso é tarefa para os artistas e educadores.

O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.


Como é fácil se juntar à política da polarização e se ver gritando através das filas contra o “inimigo” do outro lado. [isso vocês fazem bem]

E como é difícil lembrar que o reino de Deus chama para amar a mulher que acabou de sair da clínica de abortos (e, sim, até o seu médico), a pessoa promíscua que está morrendo de AIDS, o rico proprietário de terras que está explorando a criação de Deus. Se você não consegue demonstrar amor a tais pessoas, então deve questionar se realmente entendeu o evangelho de Jesus.

Um movimento político traça linhas por natureza, faz distinções, enuncia julgamentos; em contrapartida, o amor de Jesus cruza as linhas, transcende diferenças, dispensa graça. Apesar dos méritos de dada questão — quer um lobby pró-vida da direita ou um lobby de paz-e-justiça da esquerda — os movimentos políticos arriscam-se a puxar sobre si o manto do poder e abafar o amor. Com Jesus aprende-se que, seja qual for o ativismo em que me envolvo, não devo expulsar o amor e a humildade, caso contrário trairei o reino do céu.

Com o tempo, o proprio padrão de comportamento de Jesus desapontou todos os que procuravam um líder nos moldes tradicionais. Ele se inclinava a fugir dos grandes grupos, em vez de apreciá-los. Insultou os dias de glória de Israel, comparando o Rei Salomão a um lírio corriqueiro. Uma vez que a multidão tentou coroá-lo rei à força, misteriosamente desapareceu. E, quando Pedro finalmente brandiu uma espada para protegê-lo, Jesus curou os ferimentos da vítima.

Para decepção da maioria, tornou-se claro que Jesus falava acerca de um tipo de reino estranhamente diferente. Os judeus desejavam o que as pessoas sempre desejaram de um reino visível: um frango em cada panela, emprego certo, um exército forte para deter os invasores. Jesus anunciou um reino que significava negar-se a si mesmo, assumir uma cruz, renunciar às riquezas, até mesmo amar seus inimigos.

Jesus sempre indicou que o reino de Deus vem com um poder resistível. Ele é humilde, discreto e coexistente com o mal, uma mensagem que certamente não agrada os religiosos de plantão. (é só lembrarmos da intenção de revolta dos judeus patriotas da sua época)

Juliano Fabricio
contra toda forma polarização*
*concentração em extremos opostos de grupos, interesses, atividades, etc. *


Durante toda a história cristã, o amor e o poder coexistem em conflito. 

Por esta razão, preocupo–me com o crescimento do poder no movimento evangélico. Houve tempo em que ou nos ignoravam ou zombavam de nós. Hoje, os evangélicos são mencionados frequentemente nas notícias e são bajulados por todos os políticos. 

Vários movimentos políticos surgiram com características claramente evangélicas. Considero esta tendência ao mesmo tempo encorajadora e alarmante. E por que alarmante? Apesar dos méritos de determinada questão – quer se discuta a legalização do aborto, a causa gay ou a preservação ambiental –, os movimentos políticos trazem o risco de colocar sobre si a capa do poder que asfixia o amor. Um movimento, por sua natureza, estabelece barreiras, faz distinções, julga. 

O amor, pelo contrário: derruba barreiras, supera distinções e concede a graça.

Com toda certeza, não defendo uma atitude de avestruz, ou seja: esconder–se das questões que confrontam os cristãos em uma sociedade secular. Estes assuntos precisam de ser encarados, tratados, e é necessário legislar sobre eles. Mas as palavras de Paulo continuam a me perseguir:

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.

De alguma forma, como igreja precisamos de encarar o poder com humildade, temor e amor ardente por aqueles que estarão sob nossa autoridade, a não ser que não nos importemos em ver o poder ser minado, como aconteceu com líderes religiosos “bem–intencionados” que nos precederam.

Jesus não disse que todos saberiam que somos seus discípulos se aprovássemos leis justas, dominássemos a moralidade, restaurássemos a decência familiar e governássemos com integridade. O que Ele disse é que saberiam que somos discípulos dEle se nos amássemos uns aos outros (João 13:35). 

Ele fez essa afirmativa na noite anterior à sua morte. Em nenhuma outra situação o estilo contrastante do poder de Deus e do poder humano foi tão evidente. O humano, representado pelo poderoso Império Romano e a força das autoridades religiosas judaicas, colidiram de frente com o poder de Deus. Surpreendentemente, naquele momento Deus escolheu, deliberadamente, o caminho do desamparo. Poderia ter convocado dez mil anjos, mas não o fez. Ao olhar para aquela noite sombria, e também para outras noites sombrias de toda a história, fico maravilhado com a moderação demonstrada por Deus.

Acredito em que Deus se contém por um motivo: Ele sabe da limitação inerente a qualquer forma de poder. A força pode fazer tudo, exceto o mais importante: não pode suscitar o amor.

Enfim... O amor não funciona de acordo com as regras do poder.

Juliano Fabricio
entendendo o tudo posso 
do apostolo PAULO


Vamos ao teste...

Os zelotes diriam: “A razão para estarmos sendo oprimidos deve-se ao fato de sermos passivos e covardes. Se rebelássemos tipo cortando algumas gargantas, Deus nos daria a vitoria.

Outro grupo, os herodianos (nome dado aos que apoiavam o governo fantoche de Herodes e associados a um partido chamado de saduceus), pensavam que a estratégia dos zelotes era estúpida equivocada. “Vocês não fazem idéia do poder de Roma possui. Rebelar-se é um suicídio. Ao contrario devem tirar o Maximo proveito da situação, cooperando e fazendo o jogo deles, Este é o único caminho seguro e sensato”.

Um terceiro grupo, os essênios consideravam tanto os zelotes como os herodianos pouco iluminados ou mesmo ignorantes; e diziam: “A única maneira de agradar a Deus é deixando os sistemas religiosos e políticos corruptos e criando uma sociedade alternativa no deserto.”

Um quarto grupo, os fariseus tinham um diagnostico e uma prescrição diferentes: “O Senhor enviará o Mestre para nos libertar, se tão somente nos purificarmos. Se obedecermos aos ensinamentos bíblicos com maior rigor, Deus irá nos livrar. Se houvesse mais pessoas justas como nós e menos pecadores em nosso meio – menos prostitutas, bêbados e colaboradores de Roma. A culpa é desse tipinho de gente, a escória. (tipico dos coxinhas...) Enfim... Pureza religiosa e rigor, eis a resposta!

Tanto quanto os partidos políticos de hoje em dia disputam o poder, esses grupos discutiam, agiam e contra-atacavam. Alianças e hostilidades costumavam se formar e se dissolver, voltar a se formar e se dissolver novamente.

A pergunta é antiga, mas persiste: 

“O que devemos fazer com a confusão política e social em que estamos inseridos????

Pense comigo: “Jesus parecia que falava como um zelote de algumas maneiras, mas não pode ser um zelote, pois eles só pensam em poder e violência, e não em paz ou em mansidão.

Esta claro também que não é um essênio, porque eles nem se importariam em pregar para o resto de nós. Somos todos, causas perdidas para eles, por isso se retiraram para as suas comunidades religiosas elitistas. 

Mas também não pode ser um herodiano. Nunca se utilizaria se um discurso inflamado que falasse em algo como “o Reino de DEUS”, e não viriam com essa conversa de se levantar contra a injustiça. 

Diriam sim que DEUS quer que honremos o imperador e que devíamos assentar-nos e nos calar. Realmente não sei onde ele se encaixa. Talvez seja um fariseu.”

Entretanto, Jesus diz: “Vocês precisam ser mais justos e bons que os fariseus. Até mesmo as prostitutas precederão os fariseus nos Reino de DEUS.”

Isso choca você? São padrões baixos demais?

Jesus parece ser um monte de contradições. Mais sua curiosidade começa a crescer até que fica claro: este homem não é apenas mais um revolucionário qualquer, mas alguém que está chamando para um novo tipo de “revolução revolucionária” (parece redundante, porém é isso mesmo). Isso te faz ao mesmo tempo atraído e deslocado. 

Pelo menos em um ponto está claro: este filho de carpinteiro da Galileia questiona e desafia cada um dos movimentos políticos existentes para que reconsiderem radicalmente suas posições, e desafia todas as pessoas a refletir a respeito e levem em consideração sua alternativa revolucionária.

Você pode fazer parte desse Reino:

.não cortando gargantas, mas dando a outra face,

.não amaldiçoando pecadores, mas interagindo de maneira gentil e amorosa,

.não tendo medo de ser contaminado por uma má influencia, mas em lugar disso, a nobre esperança de poder sará-los e influenciá-los,

.não será um patriota cego, mas disposto a confrontar as injustiças,

Se fizer parte desse Reino, passará a viver de uma forma que alguns chamarão de estúpida e ingênua (voltar a outra face? Andar uma segunda milha? Derrotar a violência com perdão, sacrifício e amor? No entanto, outros poderão ver no seu estilo de vida a esperança cheia de coragem e tão original que poderia vir a curar e a transformar o mundo.

Juliano Fabricio
meu partido NÃO é um coração partido.


Era uma vez um bando de ratos que vivia no buraco do assoalho de uma casa velha. Havia ratos de todos os tipos: grandes e pequenos, pretos e brancos, velhos e jovens, fortes e fracos, da roça e da cidade.

Mas ninguém ligava para as diferenças, porque todos estavam irmanados em torno de um sonho comum: um queijo enorme, amarelo, cheiroso, bem pertinho dos seus narizes. Comer o queijo seria a suprema felicidade…Bem pertinho é modo de dizer.

Na verdade, o queijo estava imensamente longe porque entre ele e os ratos estava um gato… O gato era malvado, tinha dentes afiados e não dormia nunca. Por vezes fingia dormir. Mas bastava que um ratinho mais corajoso se aventurasse para fora do buraco para que o gato desse um pulo e, era uma vez um ratinho…Os ratos odiavam o gato.

Quanto mais o odiavam mais irmãos se sentiam. O ódio a um inimigo comum os tornava cúmplices de um mesmo desejo: queriam que o gato morresse ou sonhavam com um cachorro…

Como nada pudessem fazer, reuniram-se para conversar. Faziam discursos, denunciavam o comportamento do gato (não se sabe bem para quem), e chegaram mesmo a escrever livros com a crítica filosófica dos gatos. Diziam que um dia chegaria em que os gatos seriam abolidos e todos seriam iguais. “Quando se estabelecer a ditadura dos ratos”, diziam os camundongos, “então todos serão felizes”…

– O queijo é grande o bastante para todos, dizia um.

– Socializaremos o queijo, dizia outro.

Todos batiam palmas e cantavam as mesmas canções.

Era comovente ver tanta fraternidade. Como seria bonito quando o gato morresse! Sonhavam. Nos seus sonhos comiam o queijo. E quanto mais o comiam, mais ele crescia. Porque esta é uma das propriedades dos queijos sonhados: não diminuem: crescem sempre. E marchavam juntos, rabos entrelaçados, gritando: “o queijo, já!”…

Sem que ninguém pudesse explicar como, o fato é que, ao acordarem, numa bela manhã, o gato tinha sumido. O queijo continuava lá, mais belo do que nunca. Bastaria dar uns poucos passos para fora do buraco. Olharam cuidadosamente ao redor. Aquilo poderia ser um truque do gato. Mas não era.

O gato havia desaparecido mesmo. Chegara o dia glorioso, e dos ratos surgiu um brado retumbante de alegria. Todos se lançaram ao queijo, irmanados numa fome comum. E foi então que a transformação aconteceu.

Bastou a primeira mordida. Compreenderam, repentinamente, que os queijos de verdade são diferentes dos queijos sonhados. Quando comidos, em vez de crescer, diminuem.

Assim, quanto maior o número dos ratos a comer o queijo, menor o naco para cada um. Os ratos começaram a olhar uns para os outros como se fossem inimigos. Olharam, cada um para a boca dos outros, para ver quanto queijo haviam comido. E os olhares se enfureceram.

Arreganharam os dentes. Esqueceram-se do gato. Eram seus próprios inimigos. A briga começou. Os mais fortes expulsaram os mais fracos a dentadas. E, ato contínuo, começaram a brigar entre si.

Alguns ameaçaram a chamar o gato, alegando que só assim se restabeleceria a ordem. O projeto de socialização do queijo foi aprovado nos seguintes termos:

“Qualquer pedaço de queijo poderá ser tomado dos seus proprietários para ser dado aos ratos magros, desde que este pedaço tenha sido abandonado pelo dono”.

Mas como rato algum jamais abandonou um queijo, os ratos magros foram condenados a ficar esperando. Os ratinhos magros, de dentro do buraco escuro, não podiam compreender o que havia acontecido.

O mais inexplicável era a transformação que se operara no focinho dos ratos fortes, agora donos do queijo. Tinham todo o jeito do gato o olhar malvado, os dentes à mostra.

Os ratos magros nem mais conseguiam perceber a diferença entre o gato de antes e os ratos de agora. E compreenderam, então, que não havia diferença alguma. Pois todo rato que fica dono do queijo vira gato. Não é por acidente que os nomes são tão parecidos.

“Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência!”

Rubem Alves


Temos tanto o que aprender com o Mestre! 

Considero uma afronta fazer da pregação do Evangelho panfletagem ideológica, ou usar passagens isoladas das Escrituras para justificar suas preferências. Jesus não é garoto-propaganda de regime algum.
Ele não é americano, nem cubano. 
Não é petista, nem tucano.
Não é conservador, nem progressista.
Não é socialista, nem neoliberal, 
muito menos calvinista ou universalista.

Sua mensagem é comprometida com o idealismo, não com a ideologia, seja de esquerda, de centro ou de direita. Seu compromisso é prioritariamente com os pobres, mesmo que alguém o acuse de comunista. Porém, o mesmo Jesus que atende ao clamor de Bartimeu, o mendigo cego às margens do caminho, também atende aos anseios de Zaqueu, o publicano corrupto. 

Não confundam prioridade com predileção.

 O Cristo dos Evangelhos jamais fez acepção de pessoas. Ele é capaz de cercar-se de prostitutas em plena luz do dia e ainda atender a um figurão da sociedade na calada da noite. Ele perdoa os romanos que O crucificam, mas também demonstra importar-se com o destino da alma do ladrão crucificado ao Seu lado.

Ele não despreza homem algum, senão o arrogante, o que se acha dono da verdade, e que em seu nome despreza os que pensam diferentemente dele.

Todos têm o direito de ter suas predileções ideológicas. 
Mas não se enganem. 
Não há ideologia perfeita. 

Portanto, não vale a pena matar ou morrer por elas. Nem é de bom tom demonizar a ideologia do outro. Neste campo não há mocinhos ou bandidos. Ambos têm telhado de vidro. Todos produziram heróis e mártires, mas também algozes e torturadores. Protegeram interesses legítimos, mas às vezes, ao custo de vidas inocentes. Quando se quer criticar o comunismo, por exemplo, aponta-se Cuba, com o seu atraso tecnológico, esquecendo-se que o mesmo se deve ao embargo econômico promovido pela a maior potência capitalista do mundo. Há santos e pecadores, anjos e demônios em ambas as trincheiras. É perda de tempo ficar contabilizando pra ver que regime matou mais, ou promoveu mais a prosperidade do seu povo. 

Cada regime tem seu próprio altar e sacrifício. 
Um sacrifica a liberdade no altar da justiça social. 
Outro sacrifica a justiça social no altar da liberdade. 

Sempre alguém sairá ganhando enquanto outros sairão perdendo. É inevitável. Então, não queiram canonizá-los, tampouco demonizá-los. São simplesmente humanos, tão falhos quanto os que os criaram.

Parafraseando Paulo, se por causa de uma ideologia se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas por causa de uma ideologia aquele por quem Cristo morreu (Rm.14:15). Posso até considerar que um irmão esteja enganado quanto à sua ideologia, mas isso não me confere o direito de pôr em xeque a sua integridade e fé.

Quanto a mim, se me pedirem que escolha entre uma pílula e outra, minha resposta será: Nenhuma das duas. Obrigado. Estou fora da Matrix. 

Juliano Fabricio 
Sem fazer uso de pílulas!!!
(Valeu hermesfernandes por mais uma aula)


A mistura entre religião e política é nitroglicerina pura. 

Quem mexe na coisa com displicência ou de maneira inadequada corre riscos de ver a mistura explodir causando danos não raras vezes irreparáveis. Essa nitroglicerina entrou de vez, e pela porta dos fundos, diga-se de passagem, no atual cenário eleitoral. Os apoios dos religiosos aos candidatos nas próximas eleições ocupam as páginas dos jornais e as mídias virtuais. Estão presentes também nos púlpitos das igrejas, notadamente aquelas caracterizadas por lideranças de pendor autoritário – não admitem questionamento e muito menos contestação – no modelo clericalista tipo “a igreja é minha”. Pastores, bispos e apóstolos “abençoam” publicamente seus respectivos candidatos, com direito a orações, discursos e defesas em nome da fé e de Deus. As fronteiras entre templos e praças públicas, púlpitos e palanques, fiéis e eleitorado, guias espirituais e cabos eleitorais foram absolutamente devassadas. As comunidades de fé são transformadas em currais eleitorais e o antigo “voto de cabresto” foi substituído por algo mais sofisticado, o “voto de cajado”, numa referência ao abuso da autoridade pastoral sobre seus rebanhos.

Não faltam vozes condenando tais alianças entre igrejas e candidatos e partidos políticos. Mas, por que razão a prática é considerada inadmissível? O que existe de errado em uma igreja apoiar a eleição de um candidato com quem poderá contar caso ele seja realmente eleito? Por que razão o chamado “voto de cajado”, em que as lideranças religiosas manipulam seus rebanhos para a adesão massiva a um candidato é considerada inaceitável? Não basta dizer que “isso não é ético”. É preciso explicar porque.

O voto é um direito e uma responsabilidade do cidadão. Sindicatos, agremiações culturais, ONGs, clubes esportivos, associações da sociedade civil e empresas – embora se organizem para apoiar seus representantes – não votam. Igrejas também não votam. Não existe “voto coletivo”. Quem vota é o cidadão. “Os deveres cívicos não devem ser encarados como propriedade privada, mas como uma responsabilidade pública”. Esta é a opinião de Michael Sandel, autor do best seller Justiça, baseado em curso homônimo que atualmente ocupa a lista dos mais populares da Universidade de Harvard. “Terceirizar os deveres cívicos significa aviltá-los e tratá-los da maneira errada”, conclui. A noção de deveres cívicos como responsabilidade pública, defendida por Sandel, afeta o conceito de democracia republicana, que pode ser compreendida pelo menos de duas maneiras. A primeira é derivada do próprio entendimento da expressão: república, res pública, significa “a coisa pública”. A democracia, por sua vez, pode ser compreendida, mesmo com o risco do simplismo, o poder que emana do povo, é exercido pelo povo, para o bem do povo. Em síntese, democracia republicana é o exercício de administrar a coisa pública de modo a atender os interesses coletivos.

A segunda maneira de compreender a democracia está voltada para tensão das forças entre os diferentes grupos representativos da sociedade. Todos os segmentos da sociedade têm direito e liberdade de associação, expressão e mobilização para a busca dos seus próprios interesses. Em termos mais simples ainda, cada um puxa a brasa para a sua sardinha, e assim a brasa fica espalhada e igualmente dividida para todas as sardinhas. Na prática, isso é cruel. Primeiro, porque quem não se expressa, não se associa e não se mobiliza, acaba ficando sem brasa para a sua sardinha. Mas também e principalmente porque aqueles que têm mais condições de expressão, associação e mobilização ficam com porções significativas de brasa em suas sardinhas. Quem controla os poderes econômicos, políticos e de comunicação de massa leva vantagem. Em outras palavras, como todos sabemos, sobra para os pobres, que, aliás, nem mesmo sardinhas têm.

O melhor exercício da democracia é mesmo aquele em que cada cidadão está imbuído da busca dos interesses coletivos, independentemente de seus próprios interesses ou de seus grupos respectivos. Em termos ideais, os detentores do poder – em todas as instâncias – deveriam exercê-lo para o bem comum e a promoção da justiça na sociedade. Se a res é pública, todos os cidadãos deveriam dela se beneficiar. A expressão, associação e mobilização na defesa dos interesses particulares de pessoas ou grupos é uma traição aos ideais da democracia republicana. Quando a igreja se associa e se mobiliza ao redor de candidatos que atendem aos seus interesses, está fazendo o jogo totalitário: governar do meu jeito, de acordo com os meus interesses, aos quais todos devem se ajustar, sob pena de serem banidos do jogo.

O cristão, é, sim, chamado a viver dia a dia a prática de uma fé, que, por se manifestar sempre a favor da justiça, invariavelmente trará, como resultado de sua ação transformadora, consequências políticas. Respeitando as individualidades e rechaçando veementemente os maniqueísmos e as manipulações, a igreja é lugar privilegiado para a promoção de uma nova consciência. Boa parte dos movimentos de transformação social surgiu de profundos compromissos espirituais e motivações religiosas. Desmond Tutu ensinou que “não há nada mais político do que dizer que religião e política não se misturam”. Quem se omite do processo político favorece o status quo e fica refém do poder dominante. Vale a reflexão. Até porque cristãos jamais deveriam se esquecer de que inegavelmente são também seguidores de um prisioneiro político.

Quando a igreja extrapola seu papel social e assume a disposição de “voto coletivo”, rouba do cidadão sua prerrogativa de liberdade de consciência e opção ideológica e político partidária, bem como seu direito inalienável de votar livremente. 

Nenhum apoio institucional é vazio de interesses particulares. 

A igreja que apoia um candidato está explicitando sua expectativa de retribuição e recompensa. Em outras palavras, está colocando à venda aquilo que deveria estar fora da lógica de mercado, a saber, o voto e o mandato público. Essa perversão da democracia representativa, no entanto, é mais antiga que a Grécia. Todos os poderosos a praticam. 

Vergonhosa e infelizmente, não faltam líderes religiosos que participam do jogo com os mesmos critérios de injustiça e espírito totalitário dos outros atores, comprometidos apenas consigo mesmos e os grupos que sustentam seus privilégios. 

A comunidade da fé que deveria exercer na sociedade um papel profético e diaconal acaba sendo levada por lideranças pseudo espirituais, que abusam de sua autoridade, se vendem por trinta moedas, e vendem o justo por preço menor do que o dos passarinhos, como já acusou o profeta hebreu. 

Para esses líderes oportunistas e inescrupulosos, a res é pública, mas a cosa é nostra – com todas as implicações do trocadilho.



“São aqueles que vivem DO Brasil que desistiram de ser produtivos”

Tenho absoluta certeza que aqueles que vivem DO Brasil jamais vão desistir. Nunca. 

Tenho certeza que aqueles que recebem benesses, salários, empregos vitalícios, aposentadorias sem recursos previamente aportados, subsídios, verbas publicitárias do governo, concessões monopolistas de vários tipos e empréstimos do BNDES subsidiados, jamais irão desistir daquilo que sugam dos que vivem PARA o Brasil. 

Tenho certeza que artistas plásticos e atores jamais vão desistir das verbais culturais da Petrobras. 

Que empresários amigos dos reis jamais irão desistir dos juros do BNDES, que os recipientes jamais vão desistir do Bolsa Família, que absolutamente ninguém vai desistir de um emprego público, pelo contrário. 

Tenho certeza que ninguém vai desistir da sua aposentadoria pública paga com as contribuições atuais dos mais jovens, que no fundo é um enorme estelionato federal, e nossos filhos jamais vão se aposentar por causa disto. 

Tenho certeza que jornais e revistas jamais irão desistir da publicidade oficial, 20% do total. Que funcionários de estatais jamais vão desistir de ter um dono omisso e ausente, que economistas jamais vão desistir de um estado forte e intervencionista ala Minsky e Keynes que garantem sua importância e poder para muitos mais anos. 

Só que todos estes estão se esquecendo daqueles que vivem PARA o Brasil, aqueles que pagam a conta. 

Que são os empreendedores, os engenheiros, os contadores, os inovadores, os inventores, os criadores, os programadores, os orçamentistas, os auditores, os advogados, os médicos, as enfermeiras, os psicólogos, os arquitetos, os operadores logísticos, os ferramenteiros, os desenhistas, enfim. 

Você já ouviu algum jornalista, escritor, artista, poeta, sociólogo, assistente social, político, funcionário público nos defender em público, nos ajudar o mínimo que seja ou perceber que estamos com problemas para pagar os que vivem DO Brasil? 

Quando Dilma, Lula, Marina e Eduardo Campos, conclamam seus correligionários a não desistir DO Brasil, eles não estão se referindo a nós. 

Aliás, petistas, socialistas, nacionais socialistas como o PSDB, nunca se referem a nós em termos positivos. 

Somos o câncer da sociedade, somos aqueles imbuídos de “espíritos animais de preservação da espécie”, somos a ganância em pessoa, somos os eternos egoístas. 

E, acreditem ou não, são justamente aqueles que vivem DO Brasil! E que são elogiados diariamente pela nossa imprensa! Como os altruístas, os solidários, os progressistas, os que distribuem o que ganham, da gente obviamente, pelo seu amor à humanidade e pelo social. 

E o pior, que de tanto repetirem a mesma coisa, acreditam. 

E nós que vivemos PARA o Brasil fomos “desistidos” há muito tempo pela elite intelectual. 

E ainda acham que nós somos os “contra governo”, que nós somos patologicamente pessimistas com relação ao Brasil, que não vemos o belo futuro que um governo intervencionista pode nos oferecer, dizendo o que devemos e o que não podemos fazer. 

Não minha gente, é justamente o contrário. 

São aqueles que vivem DO Brasil que desistiram de ser produtivos, proativos, responsáveis e honestos com o futuro deste país. 

Todo dia vejo pessoas que vivem PARA o Brasil desistindo da pior forma, mudando de país, recusando serem os neoescravos daqueles que vivem DO Brasil. 

Algo para se pensar.


Vire à direita e não saberás o que tem na esquerda. Vire à esquerda e não saberás o que tem na direita. Não adianta, todas as escolhas deixam algo para trás.

Após a eleição de 2010, num artigo em Ultimato, reclamei do nível do debate político entre evangélicos de classes média e média alta. Não era a opção pela direita de alguns que me preocupava, mas sim a maneira como o debate era conduzido. É natural haver defensores evangélicos de várias posições políticas; e eu esperaria ver, da parte dos evangélicos mais favorecidos no sentido educacional, uma discussão madura e não-maniqueísta, que ajudasse a comunidade evangélica a amadurecer politicamente e a exercer seu papel na sociedade com mais seriedade. Em vez disso, em 2010, víamos análises alarmistas, apocalípticas e maniqueístas.

Ao entrarmos no ano eleitoral de 2014, o que podemos esperar?

Infelizmente, os indícios não são positivos. Ultimamente, no meio evangélico, têm aparecido vários artigos virulentos contra a esquerda, usando as formas mais espúrias de argumentação, como ataques à moral e às motivações dos que pensam de modo diferente, e a caracterização da esquerda em termos das suas piores manifestações históricas e da direita em termos apenas dos seus ideais.

Estranhamente, uma das caracterizações mais comuns é a da esquerda como autoritária. Além de ignorar os exemplos — muito mais numerosos — de autoritarismo de direita, essa caracterização também ignora o profundo compromisso democrático de seus irmãos na fé que se consideram de esquerda. Pior ainda, não se percebe quão irônico é querer defender a democracia com insultos.

O autoritarismo não se combate insultando e descaracterizando — e, em alguns casos, literalmente demonizando — os que pensam de outra maneira. Pelo contrário, o destempero no “debate” político é inimigo da democracia e pode até preparar o terreno para futuros autoritarismos.

Nossa principal preocupação, então, é com o “estilo” dos ataques à esquerda e o dano que fazem à comunidade evangélica. Os evangélicos mais bem formados, seja qual for a posição política deles, têm o dever de “educar politicamente” a comunidade evangélica por meio de um debate conduzido “de maneira cristã”. Isso significa não insultar o outro lado. Evangélicos de formação privilegiada têm a responsabilidade de fazer uma contribuição evangélica séria ao debate político nacional e de aprofundar o debate político no meio evangélico. Deveriam justificar a sua opção pela direita (perfeitamente legítima) em linguagem sóbria e ponderada, e não em linguagem apocalíptica que coloca em dúvida o “status” evangélico de quem pensa diferente. Deveriam liderar o amadurecimento evangélico num debate político mais sério e condizente com a democracia. Porém, até agora, infelizmente, vemos negligenciadas as virtudes cristãs de busca da verdade e de não distorcer as ações e intenções de nossos opositores.

Além de protestar contra a maneira anticristã como o debate tem sido conduzido, queremos também afirmar a importância desse debate. A metáfora espacial “esquerda-direita” é útil por dois motivos: para a representação simbólica de teorias políticas e para ambos os lados se definirem um em contraposição ao outro. O espectro político esquerda-direita está longe de ser superado. Contudo, as divisões não devem ser vistas como camisa de força, mas sim como uma questão de valores políticos.

A linhagem teórica que reúne a esquerda, de acordo com o cientista político Norberto Bobbio, é o seu ideal de igualdade social, em contraste com a direita que enfatiza o ideal da liberdade individual. Esses termos podem ser imprecisos, mas constituem o ponto de partida para a distinção. Existem casos em que os dois ideais são compatíveis e complementares, outros em que podem excluir-se reciprocamente, e existe a terceira possibilidade: a de buscar o equilíbrio. Com efeito, nenhum dos ideais pode ser realizado completamente sem limitar o outro. No entanto, a esquerda democrática está longe de propor a negação da liberdade. Antes, considera que a liberdade efetiva para todos é possível somente por meio de um certo grau de igualdade.

A democracia tem como elemento central a igualdade “política”. O paradigma liberal afirma que o livre mercado e a democracia não entram em contradição, que existe uma afinidade de valores entre os dois. No entanto, existe um problema fundamental no paradigma liberal, pois o livre mercado limita os que não têm força social para afirmar a sua liberdade. Esta é a crítica mais contundente que a esquerda propõe: quem não tem escolha real está submetido à precariedade e à vulnerabilidade. Portanto, segundo a esquerda, há uma tensão inerente ao paradigma liberal, pois a desigualdade econômica mina os direitos políticos e civis.

Podemos colocar a mesma crítica em termos bíblicos. Uma das caracterizações mais centrais da Bíblia a respeito do ser humano é a condição “caída” dele, ou seja, seu afastamento de Deus e consequente tendência ao pecado e à desintegração interior. Essa é uma das condições mais niveladoras da humanidade: “todos nós” somos pecadores. Essa “comunhão” universal humana no pecado é uma das grandes justificativas da democracia: ninguém merece ter poderes ilimitados e não supervisionados sobre os seus semelhantes.

Apesar disso, o cristianismo, no decorrer da história, foi frequentemente usado para defender ideais de desigualdade. Porém, o princípio da igualdade é como a medicina para nós: é boa, não porque seja necessariamente agradável, mas porque estamos doentes. Devido à natureza caída do ser humano, onde houver desigualdade, haverá opressores e oprimidos. Por isso, “amar ao próximo como a si mesmo” inclui, na medida do possível, o esforço para quebrar as estruturas desiguais que engendram a opressão.

No campo da esquerda política, o valor principal é a busca pela igualdade social. Afinal, a liberdade somente se torna efetiva em conjunto com um certo grau de igualdade. Somente assim, o princípio fundamental da democracia, a saber, a igualdade política, se realiza. Porém vemos, cada vez mais, as instituições globalizadas não eleitas ditando as regras para governos nacionais, muitas vezes à custa do bem-estar da população. E vemos governos se tornando reféns cada vez mais do poder financeiro e econômico. Não é difícil perceber como a desigualdade prejudica a democracia.

Há muitos outros argumentos cristãos que podem ser usados a favor de posições políticas que se costuma chamar de “esquerda”. Há, também, argumentos cristãos para defender posições de direita. Tenhamos, então, um debate adulto no meio evangélico, sem questionar a sinceridade e, muito menos, a condição cristã do outro lado. Entre a revelação bíblica e as opções políticas de hoje, há uma longa “ponte hermenêutica” a atravessar, e, ao atravessá-la, podemos tentar compartir com os outros caminhantes um pouco da luz que temos e estar abertos para receber deles um pouco da luz que talvez possuam.

Paul Freston e Raphael Freston, na Ultimato


Este discurso foi preparado por Desmond Tutu para uma platéia branca em fim de 1978, dois anos após o marco nacional da rebelião deflagrada pelos estudantes de Soweto:

"Estou aqui diante de vocês como alguém que se professa cristão. Esse é o ponto de partida para tudo que sou; e a inspiração para tudo que digo e faço. Como cristão, portanto, eu coloco, como aquele que tem a minha absoluta lealdade e ocupando o primeiro lugar na minha vida, o louvor e os serviços de Deus. Quero enfatizar que a minha prioridade é glorificar e louvar a Deus. Devo ter um relacionamento autêntico em primeiro lugar com Deus pela oração, pela leitura da Bíblia, pela meditação e usando os sacramentos da igreja. Portanto, eu coloco o sagrado como tendo um importância prioritária em minha vida. Essa é a chamada dimensão vertical da vida humana, esse relacionamento com Deus.

Mas isso não é o fim – não poderia ser o fim. A autenticidade desse relacionamento vertical, desse relacionamento espiritual com Deus, se expressa para mim e é testada por meio do meu relacionamento com o próximo. Essa é a chamada dimensão horizontal. A vertical e a horizontal. A vertical e a horizontal devem andar juntas. Nosso Senhor e Mestre jesus Cristo disse: “‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento’. Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’” (Mateus 22:37-39, Nova Versão Internacional). Para Jesus, o amor de Deus era inconcebível e não podia existir sem o corolário do amor pelo próximo. Um dos evangelistas resume o ensinamento da Bíblia nessa que questão ao perguntar: “Como você pode dizer que ama a Deus, a quem não vê, se odeia o irmão que está vendo?”

O que estou dizendo é que não sou um político. Não são as minhas ações políticas que me fazem estar envolvido na arena sociopolítica. Não. É minha crença cristã. É porque também penso que tive um encontro com Jesus Cristo em oração, na leitura da Bíblia, e é precisamente esse encontro que me impele a dizer e fazer as coisas que digo e faço. É em obediência ao imperativo do Evangelho de Jesus Cristo, ao mandamento de Deus e aos ensinamentos da Bíblia. E por isso eu não me desculpo de modo algum. Rejeito todas as falsas dicotomias como as entre o sagrado e o secular sobre coisas que são chamadas religiosas e outras que são meramente seculares. Para mim, a religião diz respeito a tudo da vida, e não só a certos aspectos dela. O Deus a quem oro é o Senhor de toda a vida. Não há aspecto da existência humana que seu decreto não governe".


Desmond Tutu
extraído do livro Deus Não é Cristão


O poder governamental sempre foi considerado afrodisíaco, uma sensação humana que poucos têm o privilégio de desfrutar, mas de efeitos fantásticos sobre aqueles que o detém.

Frequentei por um ano os corredores do poder quando fui assessor do Ministro do Planejamento, e todos meus amigos querem saber como foi a experiência, como é de fato este tal de “poder“.

Honestamente, não sei de onde vem este mito orgásmico.

Claro, um número enorme de pessoas que lhe tratam com reverência aumenta, o número de puxa sacos explode, o telefone não para de tocar com pedidos de audiência.

Mas alguém que quer realizar algo de bom e concreto volta absolutamente frustado.

Quem está acostumado a realizar coisas na vida privada fica absolutamente estarrecido com a lentidão e inércia do governo.

Ninguém lá é formado em administração, e assim nem começa a existir diálogo, ninguém entende o que é administrar a coisa pública.

Infelizmente nestes últimos 50 anos, nunca tivemos um Presidente da República e poucos ministros que tenham trabalhado numa das 500 maiores empresas privadas deste país.

Executivos acostumados à pressão de gerenciar planos com rapidez e cumprir orçamentos de forma moderna.

Profissionais que conhecessem a fundo as dezenas de disciplinas da administração, gerência de recursos humanos, controladoria, análise de sistemas, gerenciamento do crescimento, administração financeira, apuração contábil, estratégia e planejamento para disseminá-las aos seus subordinados. E, mais importante, com experiência de implantar aquilo que parece perfeito no papel.

Nossos governos, de 1964 para cá, foram administrados por acadêmicos, teóricos, bons de fala e bons escritores de artigos em jornal.

Quem conheceu no passado as grandes empresas como a Telebras ou a Matarazzo sabe como elas também eram paquidermes lentos e pesados.

Quanto maior a empresa, pior é a sua capacidade de responder às demandas da sociedade.

Agora imaginem o Governo.

Um Governo que não contrata pessoas treinadas, que não sabe delegar, e portanto nem sabe como cobrar.

Por isto, não entendo porque o povo brasileiro, os comentaristas em blogs, os próprios blogueiros e twitteiros não lutam para ter governos administrados por pessoas treinadas, em vez de sermos governados por amadores, que estão aprendendo nos primeiros 2 anos, em vez de cumprir boa parte dos planos nos primeiros 100 dias de governo. 

O poder é afrodisíaco para quem é incompetente.

Pessoas que jamais fariam algo na vida, podem agora ficar sentados e ouvir os planos das pessoas competentes que precisam de aprovação do governo para fazer o que precisa ser feito.

São os gestores que gesticulam, não administradores que administram.

Eles só precisam decidir entre os dois assessores que está propondo a melhor ideia, e muitas vezes nem isto sabem fazer.

Entreviste os poucos administradores que já trabalharam no governo.

Pessoas como o Antoninho Trevisan, Alcides Tápias ou o Furlan, e eles dirão como é frustante trabalhar no governo.

Pergunte para algum deles se pensam algum dia em voltar ao poder.

Por outro lado, pessoas que veem o poder como forma de aparecer, que adoram ser bajuladas por puxa sacos, que adoram os holofotes do cargo público, estes de fato acham o poder afrodisíaco e só pensam em voltar.

Vários leitores me perguntam porque não vou para o governo, e esta é a razão.

Não se muda o mundo de cima para baixo como antigamente.

Um Stalin ou um Mao não conseguiriam fazer nada hoje em dia, especialmente no Brasil.


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