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Um ramo surgirá do tronco de Jessé, 
e das suas raízes brotará um renovo. 
(Isaías 11...) 

O velho profeta anunciava a chegada do menino, o ramo no tronco de Jessé, como a chegada de um novo Reino. Na boca de Isaías, o nascimento do ungido que seria chamado Emanuel - Deus conosco - era a aurora de uma revolução sem precedentes.

E o bebê que surge nos evangelhos, 600 anos depois do profeta, surge arrebentando a boca do balão. No que diz respeito à subversão (Subverter = perverter; perturbar; desordenar; corromper; sublevar; conturbar; convulsionar; tumultuar), o primogênito de Maria entra de sola. Rei nascido entre os bichos e deitado na palha dura de um cocho, em uma cidadezinha esquecida num canto da palestina, o surgimento do rebento por pouco não passou despercebido de quem quer que fosse, à exceção de umas vaquinhas e jumentos que, naquela noite, não tiveram onde comer. Os poucos afortunados que souberam do fato histórico que viria a dividir para sempre o calendário ocidental, foram gente de terceira categoria. Pastoreando ovelhas à noite, fora dos holofotes e do agito da cidade, funcionários do turno 3 ouviram anjos e foram ver o pequenino. Depois deles, José e Maria, quando levaram o guri para apresentá-lo ao Deus judeu, como mandava a tradição, foram abordados por um velhinho aposentado e uma senhora amalucada no pátio do templo. Sacerdotes, levitas e fariseus também estavam por lá, mas viram somente mais um bebê entre tantos. Aí vieram os astrólogos, observadores de estrelas, de algum canto não registrado do oriente, pagãos incircuncisos, que não eram reis coisa nenhuma, sei lá de onde tiraram isso. Depois desses, somente trinta anos depois é que surge o doido varrido do João, o primeiro vegano (veganos comeriam insetos?), berrando do meio do rio Jordão - "eis o cordeiro de Deus!". Só gente da periferia, párias distantes dos holofotes é que reconheceram naquele indivíduo o Renovo, a raiz de Jessé evocada por Isaías.

É subversão a dar com o pau. Tudo errado. Tudo fora do protocolo. Parece até provocação. O rei revolucionário que surge, surge revolucionariamente.

Ninguém à exceção dessa gente distante da oficialidade, da respeitabilidade vinda do status, dos diplomas e das indicações, conseguiu enxergar naquele Jesus, o Cristo. E porquê? Ora, os respeitáveis temem qualquer coisa que surja de outros que não seus pares. Que não seus iguais. Por isso os respeitáveis oprimem, calam e, se preciso, matam aqueles que, não sendo respeitáveis como eles, surgem clamando por justiça, igualdade e "julgando a favor dos pobres" (Is 11). Os respeitáveis, não raro, assumem a forma de lobos, leopardos, leões e cobras. O que mais temem é perder sua posição de predadores e serem forçados a deitar lado a lado com os pequeninos, com os frágeis.

O anúncio da vinda do messias é o anúncio de um sonho maravilhoso materializado no esvaziamento de Deus, na fragilização do criador, no Deus bebê deitado na manjedoura. O anúncio do fim da lógica de presa e predador como mola propulsora da humanidade.

"O lobo viverá com o cordeiro. 
(...) Uma criança os guiará".

O Reino que nasce em Cristo é o reino daqueles que submetem-se a ser guiados por uma criança. Que abrem mão de um sistema que está todo ele fundamentado em predadores e presas. Que se satisfazem com a ausência das hierarquias de controle, com a fraternidade, com o irmanamento de todos. Que, sendo fortes, abrem mão de sua força e, sendo fracos, não querem uma revolução que os coloque no poder e inverta a opressão. Querem caminhar ombro a ombro, lado a lado. É o sonho de Isaías, o delírio de Mandela.

Mas isso, e aí está o ponto mais subversivo de toda essa subversão, não pode surgir por meio da força, das lutas armadas, dos gritos de guerra. É convulsão interior armada apenas com aquilo que Nietsche definiu como a maior fraqueza: o amor. Não qualquer amorzinho abobado, romântico e chorão, mas o amor de Jesus, o amor que aquele bebezinho deitado no cocho levaria às últimas consequências.

O Reino é, enfim, silenciosa e discreta semente procurando solo fértil no coração do homem, buscando aqueles que a recebam com o solo irrigado e sigam os passos do Mestre.

Juliano Fabricio
lendo atrilha


Nenhum homem sabe realmente o quanto é mau até se esforçar muito para ser bom. 

Circula por aí a idéia tola de que as pessoas virtuosas não conhecem as tentações. Trata-se de uma mentira deslavada. Só os que tentam resistir às tentações sabem quão fortes elas são. 

Afinal de contas, para conhecer a força do exército alemão, temos de enfrentá-lo, e não entregar as armas. Para conhecer a intensidade do vento, temos de andar contra ele, e não deitar no chão. Um homem que cede à tentação em cinco minutos não tem a menor idéia de como ela seria uma hora depois. 

Por esse motivo, as pes­soas más, em certo sentido, sabem muito pouco a respei­to da maldade. Na medida em que sempre se rendem, levam uma vida protegida. 

É impossível conhecer a for­ça do mal que se esconde em nós até o momento em que decidimos enfrentá-lo; e Cristo, por ter sido o úni­co homem que nunca caiu em tentação, é também o único que conhece a tentação em sua plenitude – o mais realista de todos os homens. 

C. S. Lewis - Cristianismo Puro e Simples


“Cristianismo” são as coisas que os homens disseram e fizeram a propósito de Jesus. 

Teologia é parte do cristianismo, um conjunto de palavras de homens. 

O que os homens disseram sobre Jesus não é aquilo que Jesus disse. 

Eu amo as coisas que Jesus disse, muito embora não tenha compreendido muitas delas, como “granjeai amigos com as riquezas da iniquidade”. O sermão do monte, as parábolas, os diálogos são todos maravilhosos e sobre eles escrevi muitas vezes.

Amo o que Jesus falou. 
Mas não presto muita atenção naquilo que os teólogos falaram...

Uma marca dos teólogos é a sua incapacidade para a filologia.

Por filologia deve aqui entender-se, num sentido muito geral, a arte de ler bem, de discriminar fatos sem os falsificar mediante interpretações, sem perder, na ânsia de compreender, a circunspecção, a paciência e a finura.

.....

Abaixo deixo uma #provocação do sempre inspirador Hermes Fernandes:

Não tenho nada contra os 5 "solas" defendidos pela igreja reformada: 

Sola Fide (somente a fé); 
Sola Scriptura (somente a Escritura); 
Solus Christus (somente Cristo); 
Sola Gratia (somente a graça); 
Soli Deo Gloria (glória somente a Deus). 

O problema é querer resumir toda a proposta do evangelho neles. Por isso, rejeito o "sola solas". Por exemplo: por que não "Solus Spiritus"? Ou haveria outro capaz de nos regenerar? E que tal um "Sola Amore"? Ou não é o amor a virtude das virtudes, a única a definir quem Deus é? Para os que insistem em reduzir o evangelho, "sola mento".

Juliano Fabricio 
lendo gente subversiva


Fixamos os olhos não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno (2Co 4.18).

Hoje em dia os testemunhos cristãos falam muito de enfermidades, dificuldades ou tribulações. Ou então de vitórias, libertações ou grandes milagres. Esses testemunhos revelam três tipos de cristãos:

O primeiro é o pessimista, que acha que Deus poderia fazer algo melhor para ele, que as crises normais da vida são fracassos ou perseguição do diabo; enfim, que na sua vida cristã não tem nada de suave e leve (Mt 11.30).

O segundo é o otimista, que acredita que tudo vai ser resolvido por milagre; aliás, ele vive de milagres. Nessa confiança, alguns passam cheque sem fundos crendo que Deus providenciará o dinheiro.

O terceiro que passa quase despercebido, é o realista. Ele tem consciência de que até na simplicidade pode louvar a Deus. Foge das tentações porque sabe que sua natureza humana não oferece resistência (1Co 6.18). Entende que a violência e a injustiça poderão atingi-lo, que a prosperidade não oferece a felicidade que se apregoa e também ele está sujeito a problemas de saúde.

Todavia, o cristão realista se alegra porque possui bens celestiais que nada têm a ver com este mundo (Jo 14.1-4). E, mesmo que seus problemas não tenham a solução desejada, ele ainda se alegra porque "em todas essas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou" (Rm 8.37).

Atribulado, perplexo, perseguido e abatido, pela fé em Jesus o cristão realista não vive angustiado, desanimado, pois sabe que não está desamparado e nem será destruído. Ele vive como vitorioso em meio às dificuldades porque Jesus lhe disse: "Eu sempre estarei com vocês, até o fim dos tempos" (Mt 28.20). A expectativa de Deus é que você seja um cristão realista para a glória do Senhor Jesus Cristo.

Entre pessimismo e otimismo, o melhor é depender da bondade de Deus.

A minha oração é que: 

“Deus me livre de ser um pessimista sombrio, 

que me dê a lucidez para eu não ser um otimista (triunfalista) iludido,

e que  ELE me dê a coragem para ser um realista engajado. Amém”

Juliano Fabricio
um realista convicto!!!


Sintomático, simplista talvez, mas capta a essência da coisa: 

...o que deveria ser amor, paz, alegria e liberdade, do outro e para o outro, degenerou-se em pura culpa, medo e ganância. E tudo isso por e para uma suposta entidade a quem chamam "Deus".

Mas quão distante esse tipo de mentalidade está de captar algo tão simples e tão complexo.

Lembrem-se: Seremos conhecidos pelo quanto amamos...

Juliano Fabricio
sem religião!


A felicidade que Deus quis para suas criaturas mais elevadas é a felicidade de estar, de forma livre e voluntária, unidas a ele e aos demais seres num êxtase de amor e deleite ao qual os maiores arroubos de paixão terrena entre um homem e uma mulher não se comparam. Por isso, essas criaturas têm de ser livres. 

É claro que Deus sabia o que poderia acontecer se a liberdade fosse usada de forma errada. 

Aparentemente, ele achou que valia a pena correr o risco.

Quando penso no arrependimento lembro-me que essa entrega voluntária à humilhação e a um tipo de morte não é algo que Deus exige de nós para que nos aceite de volta ou algo do qual pode nos livrar, se assim decidir. É simplesmente uma descrição de como é o próprio retorno a Deus. Se pedimos que ele nos aceite sem esse arrependimento, estamos na verdade pedindo para voltar sem voltar. Não é possível. Pois muito bem, temos de nos arrepender. 

Entretanto, a maldade que nos faz precisar disso nos impede de fazê-lo. Será que podemos arrepender-nos se Deus nos ajudar? Sim, mas o que significa essa ajuda? Significa que Deus, por assim dizer, coloca um pouco de si mesmo em nós. Empresta-nos um pouco da sua razão e assim nos tornamos capazes de pensar; nos dá um pouco do seu amor e, dessa maneira, amamos uns aos outros. Quando ensinamos uma criança a escrever, seguramos-lhe a mão, ajudando-a a desenhar as letras. Ou seja, ela só pode formar as letras porque nós as formamos. Nós amamos e raciocinamos porque Deus ama e raciocina e, enquanto isso, segura a nossa mão. Se não tivéssemos caído, tudo iria de vento em popa. 

Infelizmente, em nosso estado atual, precisamos da ajuda de Deus para fazer algo que, pela sua própria natureza, ele nunca faz: render-se, sofrer, submeter-se e morrer. A natureza divina não condiz em nada com esse processo. A estrada em que mais precisamos ser guiados por Deus é uma estrada que Deus, em sua própria natureza, nunca trilhou. Deus só pode partilhar conosco o que tem; mas ele não tem essas coisas em sua própria natureza. 

Suponha, no entanto, que Deus se torne homem. Suponha que nossa natureza humana seja amalgamada com a divina na forma de uma pessoa. Essa pessoa poderia nos ajudar. Poderia submeter-se à vontade de Deus, sofrer e morrer, porque seria um ser humano. Poderia fazer tudo isso perfeitamente, porque concomitantemente seria Deus. Você e eu só podemos percorrer esse processo se Deus o fizer ocorrer em nós; mas Deus só pode fazê-lo se for um homem. Assim como nosso pensamento só pode ir adiante por ser uma gota tirada do oceano da inteligência divina, assim também nossa tentativa de morrer só dá certo se participarmos da morte de Deus. Porém, só podemos participar dessa morte se ele morrer; e ele só pode morrer se for um homem. E nesse sentido que ele paga as nossas dívidas e sofre por nós aquilo que, por sua própria natureza, não precisaria sofrer de modo algum. 

Certas pessoas se queixam de que, se Jesus foi ao mesmo tempo Deus e homem, seus sofrimentos e sua morte não têm valor nenhum, "pois tudo isso foi fácil para ele". Outras pessoas podem (com toda razão) pro-testar veementemente contra a ingratidão e a grosseria dessa objeção. O que me deixa espantado é a incom-preensão que ela revela. Em certo sentido, os adeptos dessa objeção não só têm razão como mesmo foram tí-midos em explorar a idéia. A submissão perfeita, o sofrimento perfeito e a morte perfeita não foram somente mais fáceis para Jesus porque ele era Deus; só foram possíveis porque ele era Deus. Mas não será essa uma razão muito estranha para não aceitar essa submissão, esse sofrimento e essa morte? 

O professor é capaz de ajudar as crianças a formar as letras porque é adulto e sabe escrever. Evidentemente, para o professor é fácil escrever, e é essa mesma facilidade que o habilita a ajudar a criança. Se ele fosse rejeitado com a desculpa de que essa tarefa "é fácil para adultos", e a criança quisesse aprender a escrever com outra criança igualmente analfabeta (o que anularia qualquer vantagem "injusta"), o progresso dela não seria lá muito rápido. Se eu estivesse me afogando numa corredeira, um homem que tivesse um dos pés solidamente plantado na margem do rio poderia estender a mão e salvar-me a vida. Será que eu deveria (entre um engasgo e outro) gritar: "Não! Isso não é justo! Você tem uma vantagem! Ainda está com um dos pés em terra firme!"? A vantagem — chame-a de "injusta", se quiser — é o único motivo pelo qual esse homem me pode ser útil. Em quem buscaremos socorro, senão em alguém mais forte do que nós? 

Essa é minha própria maneira de ver o que os cristãos chamam de Expiação. Lembre-se, porém, de que se trata apenas de mais uma imagem, que não deve ser confundida com a realidade. Se ela não lhe for útil, deixe-a de lado. 

As pessoas se perguntam quando ocorrerá o próximo passo da evolução — um passo para além do próprio homem —, mas, segundo o cristianismo, esse passo já foi dado. Em Cristo, um novo homem surgiu; e o novo tipo de vida que começou nele deve ser instilado em nós.

C. S. LEWIS em
CRISTIANISMO PURO E SIMPLES


"Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens",

O que significa realmente:

"Cuidado! Não pratiquem seus deveres religiosos em público a fim de serem vistos pelos outros."

Enfim... devemos

"mostrar quando tentados a esconder"
e
"esconder quando tentados a mostrar”

Nossas boas obras devem ser pú­blicas para que a nossa luz brilhe;
nossa devoção religiosa deve ser secreta para não nos vangloriarmos dela.


Juliano Fabricio
em dicas de comportamento!!!


Tanta teologia, tanta tomada de partido, tanta verdade absoluta de alguns, tanta formação de guetos e tantos e mais tantos... enfim...

Chega de atitude nós contra eles, 

Chega tanto narcisismo ministerial,

Chega de paranóia, (somente um ex: A culpa é deles, tão diferentes de nós. Eles atraem a ira de Deus. Se deixarmos esse povo continuar, eles podem representar o fim do nosso estilo de vida.)

Chega dessa lógica ensimesmada do meu mundinho,

Chega de hermetismo. (O conhecimento de outros povos, além das fronteiras do nosso grupo, é visto como uma ameaça à verdade. Desenvolve-se não apenas medo ao saber, mas ódio.)

...e nessa confusão toda, alguns com uma frase ou uma ilustração traduzem bem melhor o que no fundo interessa de fato.

Santa subjetividade!!!

"Quem me dera
ao menos uma vez
Que o mais simples
Fosse visto como o mais importante..."

Juliano Fabricio
Aprendiz de subjetividades


Sintomático, simplista talvez, mas capta a essência da coisa: o que deveria ser amor, paz, liberdade e libertação, do outro e para o outro, degenerou-se em fundamentalismo e violência. E tudo isso por e para uma suposta entidade a quem chamam "Deus". Mas quão distante esse tipo de mentalidade está de captar algo tão simples e tão complexo:

"Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. (...) Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso, pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê" (1João 4.7, 20).


John Stott, no seu livro Contracultura Cristã, acerca do Sermão do Monte, diz que "provavelmente, a maior de todas as tragédias da Igreja através de sua longa história, cheia de altos e baixos, tem sido a sua constância de conformar-se à cultura prevalecente, em lugar de desenvolver uma contracultura cristã."

Penso que ser e caminhar em contracultura não significa propriamente andar em contramão com a cultura do nosso tempo como se ela fosse, por si só, antagónica à fé cristã. Também não implica criar um nicho-pseudo-sagrado de cultura "sacro-gospel" separada de tudo o que é mundano, "porque então vos seria necessário sair do mundo", como bem diz Paulo. Aliás, eu não sei qual dos dois erros é o mais grosseiro: se caminhar em negação com a cultura do nosso tempo ou promover a loja mágica da cultura gospel em cada canto.

Gosto daquela frase de C. S. Lewis, “O mundo não precisa de mais autores escrevendo livros cristãos, o mundo precisa é de mais cristãos escrevendo livros.” O não-conformismo que Stott fala, não implica a negação da cultura, antes a divulgação, no dizer Kuhniano, do novo paradigma extraordinário e revolucionário, que jorra das Palavras do Mestre, no Monte. Creio que a contracultura cristã acontece quando salga e ilumina a cultura contemporânea prevalecente. Acontece quando cada cristão vive e pratica o ideário de Jesus naquilo que diz e faz, todos os dias. É ser um discípulo de Cristo no meio da multidão desgarrada e errante.

Conceito “básico” de CONTRACULTURA CRISTÃ: Cristianismo é, em sua essência, CONTRACULTURA. Além da grande obra de salvação e redenção da humanidade, Jesus quebrou diversos tabus e convenções, revolucionando todas as áreas da existência humana, desde a questão de relacionamentos interpessoais, ao relacionamento homem-mulher, a redenção da mulher na sociedade, o cuidado preferencial para com os fracos (órfãos, viúvas), a preocupação para com os pobres. Não é à toa que Jesus é considerado mártir também para grupos underground não ligados ao cristianismo: uns dizem que ele foi o primeiro hippie, outros dizem que foi o primeiro comunista (no melhor sentido de justiça social atribuído ao termo), outros dizem que Jesus foi punk etc. Infelizmente, porém, desde o século III, com a conversão do imperador romano Constantino ao cristianismo, a igreja cristã aliou-se, em diversos momentos, ao poder dominante, e sofreu todas as conseqüências, na maioria negativas, desse envolvimento. Assim, em diversos momentos da história percebe-se a igreja defendendo mais interesses ligados às classes dominantes do que as propostas transformadoras do cristianismo. Dentro do ramo evangélico, por exemplo, vê-se quão distante tornou-se a igreja do próprio significado da palavra protestante.

Juliano Fabricio
relendo o sermão do monte...


Mais uma do C.S.Lewis. 

E se, por acaso, alguém destroçar seu coração de novo, abra a arca, e comece a remendá-lo outra vez...



Antes de começar só uma explicação: a imagem da Duff não é nenhum jabá da marca e também nenhuma apologia ao uso de álcool. Ela esta ai porque o Holmer Simpson tem um amor por este produto que confesso, dá uma pontinha de inveja! Gostaria de amar meu Senhor da mesma maneira que ele ama sua Duff!

Esse amor ao Senhor se manifesta quando coloco a Sua disposição meu: Tempo, Talento, Tesouro e Testemunho.

Na prática com o que um compromisso sadio com a causa de Cristo se parece?

Julgo uma pergunta oportuna, porque, quando lemos textos como Lucas 9.23: 

“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me”; 

ou Atos 20.24: “Em nada tenho minha vida como preciosa para mim, contanto que complete minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho da graça de Deus”, ao mesmo tempo que eles despertam em nós um desafio de realização do compromisso cristão responsável, podem nos levar a uma relação doentia de compromisso com Deus. Explico: de uma entrega responsável e alegre de tempo, talento, tesouro e testemunho para um padrão direcionado pela culpa “nunca faço o suficiente”, “Deus merece muito mais de mim”, etc.

Se um versículo de autonegação é mal interpretado ele pode matar sentimentos corretos e dados por Deus (oportunidades de recreação, relacionamentos e outras coisas divertidas demais que nos entusiasmam e recarregam nossas baterias), que num futuro muito próximo farão falta.

Gostaria de propor, que o “negue-se a si mesmo” em Lucas 9.23, não se refere a momentos de lazer e família, mas sim a outras áreas de nossa vida:

Morrer para os aspectos pecaminosos que nos empurram para longe de Deus;

Morrer para os padrões distorcidos do pensamento e para os motivos impuros deles;

Morrer para a concupiscência;

Morrer para o egoísmo;

Morrer para a inveja;

Mas, NÃO morrer para o “eu” interior dentro de você que Deus criou. Não negue as paixões e os sonhos que Ele lhe deu. Não suponha que todo desejo seja pecaminoso e que toda aspiração pessoal seja má.

NÃO dispense as necessidades legítimas do descanso e da recreação, do prazer e da amizade.

Se nos tornamos amargurados em nosso espírito e ressentidos do que significa seguir Cristo, é possível que tenhamos negado mais do que Deus nos pede para fazer.

Em amizade e oração,

milton paulo via: vineyardcafe




Era dia de festa! A promessa fora cumprida. Aquele que ameaçava o domínio filisteu agora sucumbira aos encantos de Dalila. A fera foi domesticada pela bela. A lâmina de uma navalha, tão afiada quanto as espadas usadas para ferir e matar seu povo, cortou-lhe os cabelos e vazou-lhes os olhos. 

Desprovido de força e de visão, Sansão é levado para trabalhar no moinho de Dagon, deus dos filisteus. 

Quem diria... aquele que os desafiava, agora trabalha em seu engenho. 

Sansão se tornara mais uma engrenagem no sistema. Perdeu sua subversividade. Rendeu-se aos encantos da Vênus, deusa do amor e da fertilidade. 

Convocação geral! É hora de celebrar! 

De repente, alguém sugere: - Que tal trazê-lo ao nosso palco para nos divertir? Não basta desacreditá-lo. Vamos ridicularizá-lo. 

O herói de Israel e terror dos filisteus agora era o bobo da corte. 

- Cante pra nós, Sansão! Cante os louvores do seu povo. Queremos dançar ao som de suas músicas. 

Outros gritavam: - Conte-nos uma piada! Faça-nos rir! 

O que começara como um culto a Dagon, tornara-se no primeiro Stand Up Comedy da história. 

- Queremos você no nosso Réveillon! Você vai virar tema de samba-enredo! 

Já havia até quem articulasse um fã clube para o Hércules hebreu. 

Um senhor muito bem arrumado aproximou-se discretamente, e colocou um cartão de visitas entre seu cinto e sua túnica. Era um empresário que, sussurrando em seus ouvidos, prometia torná-lo um astro, com altos cachês, apresentações em programas televisivos, e mega-shows em todo Oriente Médio. Sem consultá-lo, já até agendara algumas aparições em programas como " Esquenta", "Domingão", "Caldeirão", e outros. 

- Mas estou cego. Quem vai querer parar pra ouvir um cego?

O empresário respondeu: - O fato de estar cego não constitui problema algum, que o digam Ray Charles e Steve Wonder. Quiçá isso até promova uma empatia maior com o público. Eles vão te venerar. 

A esta altura, seus cabelos já haviam crescido um pouco, e eram a lembrança de uma aliança que fora quebrada. Cansado de malabarismos para divertir seus ex-desafetos e agora fãs, Sansão pede que o coloquem entre as duas principais colunas do templo. A coluna esquerda se chamava "audiência" e a da direita "lucro". 

De repente, o brutamontes cai em si. - O que é que estou fazendo aqui? Senhor, volta a dar-me a força que eu tinha. Dá-me uma nova chance de fazer diferença. Já cansei de ver essa gente se divertindo às minhas custas. Chega! 

Com sua última oração atendida, Sansão derrubou as colunas, proporcionando a maior derrota já sofrida pelos filisteus. Diz-se que com sua morte ele matou mais inimigos do que durante toda a sua vida. 

Talvez haja aí uma mensagem subliminar para algumas estrelas da constelação gospel brasileira. Jesus disse que se o grão de trigo caindo na terra não morrer, estará fadado a ficar só, porém, se morrer, há de produzir muitos frutos. 

Pelo jeito o caminho do verdadeiro crescimento não é o estrelato, mas a morte... a morte do ego, da vaidade e da ganância. 

Dado o recado.



Houve um tempo em que a infância não era tão politicamente correta. Naqueles anos, uma das atrações infantis na TV era o desenho animado de um velho marinheiro, caolho, musculoso, reclamão e machista. Era o Popeye. Resolvia todos os problemas no braço, frequentemente brigando com seu desafeto Brutus. 

No mundo desse personagem, criado para os gibis por Elzie Segar, em 1929, ninguém queria conquistar o mundo. Os desafios eram uma competição ou o amor da solteira Olívia Palito. E quando havia algum tipo de trapaça, ou risco pessoal, entrava em cena o poder sobre-humano trazido pelo... espinafre! Nada de magia, monstros alienígenas ou armas. Apenas uma porção de espinafre resolvia o problema. 

Naquela época não havia uma dezena de brinquedos inspirados nos desenhos animados e muitas crianças foram iludidas pelo poder dessa verdura rica em ferro, cálcio, fósforo e vitaminas. Pais viram seus pequenos experimentarem pratos cheios de espinafre em busca de força, velocidade e inteligência. No desenho americano, a verdura vinha numa lata, da forma como é vendida por lá, e a embalagem era aberta até com os dentes. Logo que descia garganta abaixo a reação de Popeye aparecia. 

A aventura, via de regra, terminava com o marujo cantando seu tema - “eu sou o que sou e é isso que eu sou, eu sou o marinheiro Popeye” (no original, “I'm what I am and that's all that I am”). E o herói dava duas baforadas do cachimbo – pó, pó! Um herói fumante ainda por cima...
Popeye faz lembrar outro homem do mar, muito parecido com ele, cuja história está no Evangelho. Dá até para imaginar que eram parentes: Popeye e Pedro. 

As semelhanças começam logo na ocupação – tanto Popeye como Pedro são homens do mar, e dele tiram o sustento. O primeiro está na condução de barcos há muitos anos e já viveu muitas aventuras mundo afora. Não tem medo de temporal e é capaz de conduzir uma grande embarcação sozinho. Já Pedro, aparece pela primeira vez na narrativa bíblica quando estava pescando, ou “jogando redes” (Mateus 4:18). Teria sido o primeiro a receber o chamado para seguir o Messias. O mar tem tanta importância para a vida de Pedro que é para lá que resolve voltar, após a morte de Jesus. “Vou pescar”, decide em João 21:3, sem perspectiva quanto ao seu futuro. 

Popeye e Pedro também compartilham a impaciência e uma tendência para confusão. Nos quadrinhos e desenhos animados, o marujo caolho sequer pensa uma vez antes de tentar resolver os problemas medindo forças. Uma provocação pequena, e ele já arregaça as mangas e parte prá cima. Esse é Pedro também. Não foi assim quando os soldados se aproximaram de Jesus para prendê-lo? Pedro, com uma rapidez grande, conseguiu sacar a espada de um soldado e cortar-lhe a orelha. Zap! Em João 18:11 é Jesus quem acalma o pescador, doido para fazer sushi de soldado. 

E se Popeye demonstra sua paixão por Olívia cercando-a de proteção, o discípulo não fica atrás. Pela admiração por Jesus, Pedro não o deixa um instante sequer. Está no monte da transfiguração (Mateus 17:4) e na cura da filha de Jairo (Lucas 8:51); está ao lado de Jesus no Monte das Oliveiras (Marcos 13:6) e no Getsêmani (Mateus 26:37); seguiu a Cristo, quando este foi levado até o sumo sacerdote (Mateus 26:58), e correu até o túmulo, assim que soube que o corpo do Mestre não estava lá (João 20:3). Pedro amava a Jesus. Mais do que um velho marinheiro pode amar uma jovem esquálida. 

Popeye pode ter desfrutado uma centena de vezes de sua arma secreta, sacando a lata de espinafre do bolso, mas foi Pedro o único ser humano que teve a chance de desafiar ao máximo o poder dos oceanos. Ele fez o que nenhum marinheiro ou embarcação foi capaz de fazer: Pedro andou sobre as águas. Sim, por um instante, as leis da física foram revogadas para que o discípulo tivesse a experiência de atravessar ondas indomáveis, furar o vento que queria lhe jogar para longe e enxergar através da chuva. 

Um milagre. Mas um milagre de vida tão curta quanto a duração do poder do espinafre. Veja que triste semelhança... Pedro teve medo, e afundou, encurtando uma caminhada que não poderia ser igualada nem pelo primeiro homem na Lua. 

Foi assim, convivendo com fracassos e sucessos, que o pescador aprendeu a pescar homens. O homem apresentado no livro de Atos é outro. É um Pedro que aprendeu a dominar seu temperamento, que não esquece o período ao lado do Mestre. Pedro, mais maduro, mais lobo-do-mar-das-almas, sabe que carrega uma arma secreta dentro de si. E nada mais importa, porque nada mais pode ter valor maior - “Não tenho prata nem ouro, mas o que eu tenho, isso te dou” (Atos 3:6). 

Se o herói de Elzie Segar traz o fatalismo e o conformismo (presentes no “eu sou o que sou e é isso que eu sou”), o pescador de homens traz a lição de que é possível se transformar, dia após dia. Eu sou o que sou, sim, mas não preciso ser isso para sempre. 

Caminhando ao lado do Salvador, eu posso ser nova criatura. E quando a graça me alcançar, aí sim, posso dizer: eu sou o que a graça permite, e é isso que sou. 

Juliano Fabricio via: Deus no Gibi (imagem Popeye via: Lee Romao)


Jered Fanning, designer americano, criou um infográfico baseado em uma pesquisa feita com os números de livros impressos mais vendidos nos últimos anos. O resultado revelou a Bíblia Sagrada como o livro mais vendido do mundo. Gostei. Será que o povo está ficando mais religioso? Bem, em seguida, liderando o topo da lista, temos O Livro Vermelho (2º) e Harry Potter (3º). O Senhor dos Anéis (minha saga preferida) e Crepúsculo (Os Vampiros, de novo!) também viraram sucessos no mundo inteiro. Destaque para o brasileiro O Alquimista, de Paulo Coelho. Veja a lista:

1. A Bíblia Sagrada
2. O Livro Vermelho
3. Harry Potter
4. O Senhor dos Anéis
5. O Alquimista
6. O Código Da Vinci
7. Crepúsculo
8. E o Vento Levou
9. Quem Pensa Enriquece
10. O Diário de Anne Frank

Conclusão, o povo adora uma história de aventura e fantasia, mas também busca realizar os seus sonhos e ajuda na fé e em palavras motivantes. Interessante.

Juliano Fabricio via


“Minha irmã só queria que a igreja ficasse mais bonita.” 

Com essa frase a reportagem do jornal El Pais inicia o que veio a se tornar um dos memes mais recentes das redes sociais. Vou atualizar quem não está inteirado da situação. Recentemente, uma senhora com muito boa vontade se dispôs a ‘restaurar’ uma obra antiga pintada num templo na Espanha. Acontece que a restauração se tornou um desastre, e foi divulgada na velocidade que só os memes da internet conseguem ter. Como resultado, Cecília Giménez tornou-se uma celebridade da noite para o dia, mas por razões que depõem contra toda a sua boa vontade em ajudar.

Este quadro me lembrou algo que poderia se aplicar muito bem a todos que fazem parte da igreja. Muitos cristãos querem tornar Jesus mais ‘bacana’ para que ele seja aceito pelos não cristãos. Nisto procuram encontrar uma forma de torná-lo mais adequado à suas audiências. Porém muitas vezes ocorrem exageros e distorções nessa tentativa de agradar as pessoas. Mesmo com a melhor das intenções, trocamos o Jesus Vivo e Verdadeiro por uma falha tentativa de transmiti-lo de uma maneira mais aceitável. Contudo, recorremos a um ‘material inadequado’.

Creio que devemos usar todos os meios viáveis para propagar a Cristo. Porém também acredito que nosso modelo para isso deva ser unicamente Cristo. Precisamos nos guardar da tentativa de ‘embelezar’ Jesus e sua igreja. Para não incidirmos no erro de colorar sob ela outro fundamento:

“Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo” (1 Co. 3:11).

Cristo é a única Pedra Angular. Ele é o modelo definitivo para tudo o que somos e para tudo que devemos fazer. Ele é o cerne da Mensagem que devemos propagar. Adicionar coisas ‘modernosas’ a nossa Mensagem e relaciona-las a Jesus é uma abominação, e algo que não deixará de ser julgado por sua Palavra. (Jo 12:48)

É tempo de nos arrependermos de tudo aquilo que está em nós que agride a natureza de Jesus, de todas as nossas características que não se parecem com o Filho. Precisamos nos voltar ao modelo que temos em Cristo e nos aproximarmos cada vez mais dEle através da prática da Verdade. Vamos expor nossas vidas ao Senhor e à sua igreja, por meio de irmãos mais maduros, afim de que Ele nos transforme cada vez mais à Sua imagem. (2 Co 3.18) Só assim o mundo poderá ler em nós, igreja de Jesus, uma imagem que os leve a admirar e desejar tornarem-se como Jesus. Até o dia em que seremos uma igreja sem mácula, ruga ou ‘defeito de pintura’.


No começo de 2012 entendemos a necessidade de criar um nome, uma marca e um conceito forte para o grupo de jovens da Igreja Batista em Vila Pompeia (São Paulo-SP), onde congrego desde 1987 e sou membro. Isso tudo representaria um novo momento para o grupo, portanto, deveria ser uma mensagem cheia de personalidade que permeasse toda a comunicação, um conceito que refletisse suas crenças e seu propósito.

Depois de um brainstorming coletivo regado a Coca-Cola e pizza, surgiu o 513.












Veja + aqui. VIA: PAVABLOG


Jaque Barbosa, no Hypeness (via: Pavablog)

Histórias podem ser contadas de diversas formas, e a que o fotógrafo Thomas Lekfeldt encontrou para contar a da menina Vibe, foi incrivelmente tocante.

Em 2007, Vibe uma criança dinamarquesa de 5 anos, foi diagnosticada com tumor cerebral. Por causa de sua localização, foi impossível removê-lo com cirurgia, obrigando a pequena garota a receber trinta sessões de radiação, quatro quimo-terapias, três quimo-terapias de alta intensidade e um alguns tratamentos experimentais. Em Janeiro de 2009, ela perdeu a luta contra a doença. Toda a sua trajetória de coragem foi registrada pelas lentes do fotógrafo resultando num trabalho emocionante.

O ensaio nos lembra de quão medíocres e ingratos somos quando reclamamos de coisas simples como trânsito, o cabelo que acordou feio naquele dia ou a fila no caixa do mercado.



Recomendamos que acompanhe o ensaio completo aqui.


Quantas referências à história e músicas dos Beatles você consegue encontrar nessa ilustração do Mattias Adolfsson? A versão preto e branco tambem e muito legal, veja aqui. Toda a história e o trabalho original aqui.
 

Os Poetas e Repentistas são, não raro – e este é bem um caso elucidativo! – uma espécie de radares privilegiados ou uma antena com alto potencial perceptivo. Captam com rara felicidade os sinais que circulam pelo espaço social. Com sentidos aguçados, não tardam em captar sinais de contradição espalhados em nossa realidade social, econômica, politica, cultural, religiosa. Desta faixa de um seus CDs, houve por bem selecionar três das estrofes encimadas pelo mote instigante: “No comércio da fé Jesus não passa / De um produto vendido à prestação”. 

Mesmo sabendo que não se trata de um fenômeno novo – a exploração religiosa, como se sabe, remonta a séculos em nossa conturbada história -, não há negar que o acelerado processo de globalização também se traduz por meio de valores religiosos. A chamada “teologia da prosperidade”, tão ao gosto das recentes expressões neopentecostais (alguns preferem chamar “pós-pentecostais”) constitui um exemplo paradigmático. Situação agravada em conjunturas de crise sócio-econômica, ocasião em que se fazem mais fortes e mais freqüentes os apelos à divindade, no sentido de socorrer milagrosamente desempregados, endividados, enfermos graves, lares desintegrados. Quase tudo passa do terreno das possibilidades humanas para o campo da segurança exclusive em Deus. Transfere-se para Deus tudo o que, antes, era da alçada dos homens. 

Nesse contexto, a tendência dominante é de abusar do recurso aos milagres e às magias, “em nome de Deus”. Bateu desemprego na família? Vamos apelar a Deus, trazendo a Carteira de Trabalho para ser abençoada, e fazer tornar a situação de emprego. O mesmo se estende a outros desafios. 

Não se restringe a apelar para Deus, mas também cuida de extrair vantagens. Abusa-se da recomendação ao pagamento de dízimo, de ofertas generosas, como condição explícita ou implícita de reação de Deus aos apelos formulados pela vítimas, com a mediação de pastores e padres…

Eis o clima propício para a ocorrência do relato poético dos Repentistas: 

Os pastores e padres são isentos
De despesas com carro, casa e feira
Os fiéis são quem tira da carteira
As despesas e os gastos dos aumentos
Para Deus tem até 0800
Custa quatro reais a ligação
Eles chamam isso tudo louvação
Mas eu chamo isso tudo de trapaça
No comércio da fé Jesus não passa
De um produto vendido à prestação 

(…) 

Sei que a Bíblia em CD está gravaada
E que Cid Morieira as cifras soma
A Capala Cistina lá em Roma
Quem quer ver são dez dólares a entrada
21
Hoje, toda cidade é explorada
Por novena, por missa e e procissão
Vendem até o rosário de oração
Crucifixo, água benta, blusa e tassa
No comércio da fé, Jesus não passa
De um produto vendido à prestação 

(,,,) 

Sei que a seita dos Mórmãos quantifica
Quem dá mais é quem consta do arquivo
A Presbítera tem cunho lucrativo
Renascer muito atrás também não fica
A Igreja Católica é a mais rica
Mas as outras igrejas também são
Não aceitam fazer a divisão
Essa hipótese a Igreja não abraça
No comércio da fé, Jesus não passa
De um produto vendido à prestação 

(Do CD recolhendo os melhores momentos do I Grande Encontro de Poetas e Repentistas do Nordeste, realizado em João Pessoa, em abril e maio de 1999) 

Inscritas igualmente no padrão clássico das décimas, as estrofes seguem as características comuns de um “martelo agalopado”: estrofes de dez linhas, cada verso contendo dez sílabas, acentuadas na terceira, na sexta e na décima. Mesmo padrão de rima (ABBAACCDDC). 

Convém destacar a criatividade do mote, quanto à força dos argumentos e ao seu caráter didático, ao alcance das pessoas comuns. Há de se destacar, ainda, a imaginação dos autores, quando se trata de fazer analogias criativas entre as práticas religiosas dominantes e o espírito de mercado que as impregna.

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