Lya Luft, no livro "Pensar é transgredir" escreveu: "Quando menos se espera ele chega, o pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do trânsito, na frente da TV ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, da lamúria, da hesitação. Sem ter programado, a gente para pra pensar. É como espiar para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para o nada, outras, para um jardim de promessas. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar, reavaliar-se. Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos esmaga".
Pensar é um maluco convite para a reinvenção diária de nós mesmos. É uma alternativa contra a morte por sufocamento pela poeira da banalidade. É vasculhar no nevoeiro de quem somos, a centelha que chamamos de essência.
Pensar é muito mais provocativo do que o simples ato de enfrentar-se no espelho. É ter coragem de ir no terraço da alma e olhar em volta, e quem sabe, finalmente, viver. É compreender que somos reféns de algo bem maior do que o nosso próprio mundinho pessoal. Estamos inseridos no ciclo violento do existir. E isso dói...
Pensar é encontrar em todos os desastres e em todas as flores o significado que compõe as fases desse processo humano de ser. É discernir. A infoxicação atordoa. A constante troca de mitos produz o esvaziamento dos conteúdos. A pluralidade de ofertas de mercado e possibilidades nos cansa. Deus demais, Deus de menos...
Pensar é escolher viver na contramão. À revelia. Transgredir modelos neurotizantes e generalizantes. É ter a vacina contra a paralisia da alma. Quem não pensa é escravo da mediocridade. Aprende a cultuar o mais fácil, o mais divertido, o que todo mundo faz.
Se eu não pensar, abafo todas as inquietações. Amordaço todos os questionamentos mais lindos que há em mim. Não quero que o urgente assassine o importante real. Não quero uma ditadura da mediocridade. Há tantas coisas que não quero...
Ouse pensar.
