É bem verdade que vivemos em um tempo em que as relações estão a cada dia mais descartáveis. Nós somos partes de uma geração cuja presença, e cujo interior, e em cujo meio os absolutos inexistem. Tudo é relativo. Vivemos em um tempo de profunda relativização. E, por isso, as relações e quase tudo que a gente faz se tornam descartáveis.
Os seres humanos não são mais o próximo a ser amando; os seres humanos são o próximo a ser usado.
Os seres humanos não se amam, e essa é a marca da iniquidade. Por se multiplicar a iniquidade o amor de muitos esfriariam. A injustiça, a maldade, a tirania se multiplicam com tanta intensidade[1] que é romanticamente inevitável que o amor não se congele. São duas vias que seguem a mesma direção: iniquidade de um lado e esfriamento do amor de outro.
Quem não ama usa! É por isso que nesse quadro tudo termina com tanta facilidade. O amor está em tudo, e ao mesmo tempo em lugar nenhum. Cantamos sobre o amor, escrevemos, lemos, pregamos, mas de fato não o vivemos; não amamos.
Além de relativizados, nossos relacionamentos foram tomados de um espirito totalmente consumista. O mesmo verbo “comer” é usado tanto pra um quanto pra outro. Do mesmo modo que como uma pizza e jogo as bordas fora, também “comemos” o nosso próximo da maneira mais pejorativa possível. Usamos e depois descartamos, tanto gente quanto objetos.
Não nos espantamos com a iniquidade. Mães abandonam seus filhos, mendigos são queimados nas ruas, filhos assassinam suas mães, casamentos são desfeitos aos montes a cada dia pelos mais variados motivos, e a lista não para aqui. Vivemos em um mundo doente, e sinceramente não sei por onde começar a mudar essa brincadeira.
O amor é a verdadeira revolução. Mas, como usar essa ferramenta tão relativizada e ao mesmo tempo tão desgastada? Chegará o tempo em que aqueles que amam de verdade não se dobrarão a esse discurso, não usarão mais essa palavra, não se renderão à tentação de usar essa homilia politicamente correta e hipócrita. Chegará dias em que falar de amor chegará a ser considerado insanidade, e praticá-lo, uma fantasia.
[1] E isso chega a ser muito contraditório. Os evangélicos brasileiros todos os dias se gloriam pelo crescimento institucional. Ou seja, os evangélicos aumentam, mas também aumenta a corrupção, a injustiça, a maldade, o pecado, etc. Algo a se ponderar.
