Temos sido testemunhas silentes de feitos perversos; temos vivido encharcados por incontáveis tempestades; aprendemos as artes do engano e da falsidade; a experiência deixou-nos desconfiados com relação as outros e impede-nos de sermos abertos e sinceros; conflitos intoleráveis nos exauriram e transformaram-nos em cínicos. Teremos ainda alguma utilidade?
Fomos testemunhas mudas de atos maus, tornamo-nos rudes, aprendemos a arte de simular e a fala de duplo sentido, a experiência tornou-nos desconfiados em relação às pessoas e, muitas vezes, lhes ficamos devendo a verdade e a palavra livre; por causa dos conflitos insuportáveis tornamo-nos frágeis e talvez até cínicos – ainda temos serventia?
Não gênios, nem cínicos, nem pessoas que desprezam os seres humanos, tampouco estrategistas refinados, mas pessoas singelas, simples e retas são o que precisaremos. Será que a nossa capacidade interior de resistência permaneceu forte o suficiente diante do que nos foi imposto e nossa retidão contra nós mesmos terá deixado de nos poupar o suficiente a ponto de reencontrarmos o caminho da simplicidade e da retidão?
Dietrich Bonhoeffer, em Depois de dez anos (1940)
