Já faz algum tempo que a figura franzina e enrugada daquela senhora me fascina.
Levanta-se à minha frente como um assombroso exemplo de que é realmente possível lançar o corpo em mar aberto sem ter onde apegar-se. De forma absolutamente inconsequente, aquela mulher ouviu o grito de “xô” do Mestre e arribou-se gaiola afora para desfrutar a apavorante liberdade que a privaria de toda segurança que a sensatez exige. Exemplo terrível.
Ontem, porém, através das páginas de uma famosa revista (para usuários cadastrados), essa doce senhora deu um salto vertiginoso aos mais altos degraus do meu seleto grupo de discípulos de Cristo que merecem respeito. Para escândalo de alguns e meu deleite pessoal, Madre Tereza, lá num canto escuro de Calcutá, duvidou da presença de Deus. Envolta dela, e de todo o sofrimento humano que a cercava, permaneceu somente densa escuridão. A Providência deu lugar à solene Ausência.
“Eu tenho apenas a alegria de não ter nada –
nem a realidade da presença de Deus”.
Madre Tereza de Calcutá, em carta ao seu confessor, padre Joseph Neumer.
Obviamente, do conforto de suas poltronas de madeira nobre e belos ornamentos, na segurança gélida das catedrais úmidas, padres e bispos aconselharam a moça. Pastores e diáconos não teriam feito diferente. As palavras, no entanto, não dissiparam a escuridão. Como é fácil ter fé dentro da gaiola. Sei bem como é. Solto por aí, vendo fome, miséria, dor, sofrimento, morte, medo, violência e injustiça, não há fé que agüente.
– Onde está Deus? – grita o aflito em sua agonia.
Ao invés de respostas corretas e geladas, deveríamos oferecer o calor e aconchego de nosso peito e dizer, sinceramente:
– Não sei. Mas eu estou aqui.
Ps: Um tamanho amor assim eu quero sentir pelo outro!
Juliano Fabricio
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