“Se alguém nos perguntasse: “O que é a Bíblia?” provavelmente não começaríamos nossa resposta dizendo: “A Bíblia é um livro realista”. Contudo, no século em que estamos esse poderia ser o melhor ponto de partida – enfatizar o realismo da Bíblia em contraste com o romantismo que caracteriza o conceito de religião do século 20. Para a maioria das pessoas modernas, a verdade é para ser buscada por meio de um salto do qual extraímos nossas próprias experiências.
Muitos sentem que a Bíblia devia retratar uma visão romântica da vida, mas a Bíblia é de fato o livro mais realista do mundo. Ela não diz de modo pouco sincero: “Deus está no seu céu – tudo está bem com o mundo!” A Bíblia encara de frente os dilemas do mundo. Contudo, diferentemente do realismo moderno que termina em desespero, a Bíblia tem respostas para os dilemas. E ainda, diferentemente do romantismo moderno, suas respostas não são otimismo sem uma base suficiente, nem esperança pendurada num vácuo.
Por isso devemos dizer de imediato às pessoas deste século: a Bíblia é um livro de fibra resistente.
O realismo da Bíblia conduz a muitas aplicações práticas. Por exemplo, por ver os homens como pecadores, a Bíblia ensina que existe a necessidade da força nesse mundo caído. Forma não se desenvolve sozinha. Allen Ginsberg era típico de alguns que dizem que a forma é desnecessária; tire a forma e a vida sairá bem, na certa. Mas dê uma boa olhada na sociedade sem forma e sem pelo menos alguma força que a faça manter essa forma. A anarquia logo desumaniza os homens.
Mas felizmente a Bíblia dá respostas que se adequam à estrutura de um mundo perdido. Ensina que a força precisa ser usada em muitos diferentes níveis. Os cristãos entendem que a punição deve ser usada em casa. Se seus filhos são parte da raça revoltada dos homens (como a Bíblia afirma que são), então em nossos lares precisamos providenciar estrutura e forma, bem como liberdade. O equilíbrio de forma e liberdade precisa existir no lar de um modo prático: deve haver um castigo como parte do amor.
O conceito bíblico está enraizado no caráter do próprio Deus. Deus existe e ele é santo: ele odeia o pecado e o erro e a crueldade. Ele julgará o pecado: contudo ao mesmo tempo ele é amor. Então a tarefa do cristão é demonstrar e agir com base no caráter de Deus. O cristão não deve ser um ser romântico para com o pecado e a perdição no mundo, pois, em seu lar, sociedade, igreja, organizações e relacionamentos, ele deve implementar o juízo quando necessário – mas com as motivações simultâneas de justiça e amor.
Uma vez enxergando o realismo da Bíblia, podemos entender porque a reforma produziu um sistema democrático de controle de poder. Um cristão não confia nem em si com poder ilimitado. Calvino ponderou que, por serem os homens pecadores, é melhor serem governados por muitos, em vez de o serem por poucos ou por um só homem. Toda organização cristã, e todo estado edificado sobre a mentalidade da Reforma, são construídos para permitir aos homens liberdade sob Deus, mas não uma liberdade ilimitada. Liberdade sem limites não funcionará num mundo perdido; alguma estrutura e forma são necessárias.
Portanto, quando dizemos que a Bíblia é um livro realista, isso não é uma proposição teórica num tabuleiro de xadrez metafísico. Está relacionado com as realidades da vida – realidades no lar, no governo, no modo em que olhamos o mundo.
Francis Schaeffer - em seu livro Não há gente sem importância via: rennovario
